Além de danos nas articulações, chikungunya pode afetar sistema nervoso central


Investigação realizada por equipe internacional de pesquisadores mostrou que o vírus chikungunya pode causar infecções neurológicas. Risco de morte nas fases agudas e subagudas da doença foi maior em pacientes com diabetes e em jovens adultos (imagem: Wikimedia Commons)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Estudo realizado por equipe internacional de pesquisadores com apoio da FAPESP revela que a infecção pelo vírus chikungunya pode ter manifestações ainda mais graves que os sintomas característicos da doença, como febre aguda, cefaleia, erupção cutânea e intensas dores articulares e musculares.


A análise, realizada por 38 pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP), Ministério da Saúde, Imperial College London e Universidade de Oxford, mostra que o patógeno pode infectar também o sistema nervoso central e comprometer as principais funções motoras.


“O estudo trouxe novos entendimentos importantes sobre a doença e o vírus da chikungunya. Além da possibilidade de o vírus infectar o sistema nervoso central, identificamos também que a letalidade da doença é maior em adultos jovens e não em crianças ou idosos, como se costuma prever em surtos da doença. A investigação mostra ainda que pacientes com diabetes parecem morrer com frequência sete vezes maior durante as fase aguda e subaguda da doença [entre 20 e 90 dias após serem infectados] que indivíduos sem a comorbidade”, diz William Marciel de Souza, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coautor do artigo publicado na revista Clinical Infectious Diseases.


A pesquisa foi conduzida no âmbito do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE). Também é fruto do projeto de pós-doutorado de Souza, realizado em parte na Universidade de Oxford, no Reino Unido, por meio de uma bolsa de estágio no exterior . O projeto realizado por pesquisadores de diferentes instituições contou ainda com auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


Maior surto nas Américas


O trabalho teve como base uma ampla gama de dados clínicos, epidemiológicos e amostras laboratoriais de pacientes que morreram durante o maior surto da doença nas Américas, ocorrido no Estado do Ceará, em 2017. Na época, foram registrados 105 mil casos suspeitos e 68 mortes.


A documentação dos dados coletados durante a epidemia foi realizada pelo Serviço de Verificação de Óbitos da Secretaria de Saúde do Ceará. A partir dessas informações, os pesquisadores puderam avançar nas investigações, realizando um estudo muito completo sobre o surto. Amostras de sangue e líquor dos infectados foram submetidas a métodos de análises genômicas, como RT-PCR (teste capaz de identificar o material genético do vírus) e MInION (tecnologia que permite sequenciar rapidamente o genoma viral). Também foram realizadas análises de imuno-histoquímica (para avaliar amostras de tecidos) e exames para detectar a presença de anticorpos contra o vírus chikungunya.


O patógeno é transmitido por meio da picada de fêmeas dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. A maioria dos casos da doença é caracterizada pela forma aguda da infecção, com febre alta, dores de cabeça, nas articulações e nos músculos, além de náusea, fadiga e erupções na pele, por três semanas após a infecção. Depois desse período, alguns pacientes podem evoluir para a fase subaguda, com a persistência desses sintomas. Em alguns casos, a dor nas articulações pode persistir por mais de três meses, indicando a transição para o estágio crônico, que pode durar anos.


Além de ter a comprovação laboratorial, os pesquisadores também verificaram os prontuários médicos e observaram que a grande maioria dos infectados que morreram durante o surto no Ceará apresentou síndrome neurológica – lesões no sistema nervoso central que podem ser altamente incapacitantes por comprometerem as principais funções motoras.


“As dores articulares eram bem conhecidas e estão relacionadas com a denominação da doença, que no idioma suaíli significa aquele se dobra [de dor]. No entanto, identificamos também graves problemas no sistema nervoso decorrentes da chikungunya”, diz Souza.


Das 36 amostras de tecido cerebral de indivíduos que vieram a óbito, quatro (ou 11%) continham o microrganismo. “A presença do vírus dentro do cérebro de infectados significa uma caracterização bem clara de que ele consegue ultrapassar a barreira hematoencefálica – que protege o sistema nervoso central – e tem capacidade de causar uma infecção no cérebro e na medula espinhal”, explica Souza.


Mais vulneráveis


Além das novas características da infecção, os pesquisadores identificaram também que o risco de morte nas fases agudas e subagudas era sete vezes maior em pacientes com diabetes. Os pesquisadores realizaram uma análise patológica e os resultados indicam, nos casos de óbito, a infecção por chikungunya em distúrbios na circulação sanguínea e no equilíbrio hídrico no cérebro, coração, pulmão, rim, baço e fígado.


“O trabalho confirma algumas observações clínicas prévias da morte por chikungunya e também evidencia novos aspectos da doença e sua letalidade. Essas novas informações, obtidas por meio do estudo minucioso do surto ocorrido no Ceará, deverão contribuir para o reconhecimento de fatores causadores de gravidade, ajudando também, no futuro e a partir de novos estudos, no tratamento”, diz Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e coautor do estudo.


Figueiredo realiza pesquisa, apoiada pela FAPESP, sobre sequenciadores de alto desempenho para identificação e caracterização de vírus, sem a necessidade de isolamento e cultivo celular. O método, mais eficiente e barato, utiliza a plataforma MinIon, que faz a leitura do DNA e do RNA em tempo real. Dessa forma, o sequenciamento genético do vírus é obtido em uma única etapa.


A partir do estudo, os pesquisadores revelaram padrões inesperados para epidemias de arboviroses, como, por exemplo, o fato de idosos e crianças não representarem os grupos etários com maior risco de morte. Pelo contrário, entre os mortos no surto de 2017, a maioria era de adultos (40 anos ou mais).


A descoberta se deu a partir da análise de 100 casos de morte por suspeita de arbovirose (entre 2016 e 2017) no Estado. A partir de análise de RT-PCR, os pesquisadores conseguiram identificar a presença do vírus chikungunya e confirmar a causa da morte desses indivíduos.


“Normalmente, relacionamos esse vírus a hospitalizações e óbito de pacientes mais idosos ou crianças. Porém, foi observado que a maioria [mais de 60%] das pessoas infectadas pelo chikungunya que apresentou infecção no sistema nervoso central e foi a óbito era adulta”, relata Souza.


Souza destaca que os pacientes que morreram tinham uma variação etária grande, desde crianças com 3 dias de idade, até pessoas com 85 anos.


De acordo com o pesquisador, o achado reforça que, em um surto como o ocorrido no Ceará, não necessariamente o grupo de maior risco está nas pessoas com o sistema imunológico suprimido, ou deficiente. “Eram adultos jovens e saudáveis e não havia comorbidade relacionada na maioria dos casos. Isso adiciona mais uma camada à doença e pode ser uma informação de extrema importância para a prática clínica – que deve dispensar atenção redobrada a esse grupo etário, pois a probabilidade de evoluir para óbito é maior”, diz.


O artigo Fatal outcome of chikungunya virus infection in Brazil (doi: 10.1093/cid/ciaa1038) pode ser lido em https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa1038/5885158.


Fonte - Agência Fapesp

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