As lesões neurológicas provocadas pela covid-19

As manifestações neurológicas são evidentes. Dores de cabeça, tonturas, agitação, confusão, lapsos de memória, perda do olfato, ausência do paladar, palavras que custam a sair (e outros casos mais graves). A covid-19 mói a cabeça sem dó nem piedade. E o seu rasto pode durar semanas ou meses. Tudo é novo e tudo é flagrante nesta pandemia. Uma coisa é certa: uma infeção é uma disrupção de vida. Mais agressiva ou mais suave.



Em poucos dias, os sintomas intensificaram-se e o que parecia ser uma constipação sem a mínima importância era, de facto, uma infeção por covid-19. Sete meses depois, pontuais lapsos de memória, palavras que não saem à primeira, por vezes um aflitivo engasgar ao falar. As dores nas articulações tão localizadas, difíceis de perceber, dos cotovelos às mãos e dos joelhos aos pés, não desapareceram. As dores de cabeça, tão fortes que foram, persistem com menor intensidade. E aqueles dias escuros em que pensou que não aguentaria, que não resistiria. Agora quer entender o que se passa na sua cabeça e no seu corpo depois de tudo o que lhe aconteceu. E ainda acontece.


Sarika Karim, 41 anos, gere três lares de idosos em Lisboa e sentia que, mais dia menos dia, poderia ficar infetada, pela exposição ao risco, apesar de tudo o que fazia. “Sempre tive todos os cuidados possíveis e imaginários, sempre a desinfetar as mãos, sempre de máscara, distanciamento social.” No início de junho do ano passado, uma constipação, pelo sim, pelo não, deixa de ir aos lares, faz o teste, está positiva à covid-19. A saúde começa a piorar. Um cansaço tremendo que a põe de rastos, não consegue fazer nada. Sente que a memória, às vezes, quebra, de vez em quando engasga-se ao falar. Tem tosse e umas dores de cabeça de uma intensidade inexplicável para quem sofre de enxaqueca crónica desde os 18 anos e, ainda por cima, é bastante tolerante à dor.


De repente, melhora, pensa que o pior já passou. De 10 a 18 de junho, volta tudo e esse tudo é muito pior. “Foram oito dias em que pensei que ia desta para melhor”, confessa. Um dia não aguentou tanta disfunção e teve de ir às urgências. “A cabeça estava a explodir, vómitos, dores de barriga, diarreia.” Mais uma infeção urinária diagnosticada. É medicada, volta para o isolamento. A 18 de junho, testa negativo, continua mais um tempo em recuperação antes de voltar fisicamente ao trabalho. “Fiquei mais oito dias em casa a recuperar, esta infeção deixou-me muito em baixo, perdia a força muito rapidamente.”


Consulta de neurologia, uma ressonância magnética, e a vontade de perceber o que se passa, aquelas dores que não vão embora. “São os sintomas que continuam a existir, ando há mais de seis meses a tentar recuperar desta infeção que deixou algumas sequelas”, revela. As dores continuam e as de cabeça são indescritíveis. “São dores que não sei explicar, é uma dor muito intensa que alivia, mas que não passa.” Se fala bastante fica cansada, as quatro filhas já sabem que é melhor escrever recados e mensagens para evitar esquecimentos à mãe. “O cansaço continua, as dores no corpo continuam.”


Consultas atrás de consultas, um raio-X aos pulmões e nada de anormal é detetado. Sarika Karim não imaginava que o impacto do novo vírus fosse tão avassalador e ninguém lhe venha dizer que a covid-19 é uma simples constipação. “Os relatos diziam que era uma gripe, que doía um bocado a cabeça. Para mim, foi tudo a triplicar, tosse, perdi o paladar, perdi a voz.” E tudo o resto. “Fiquei muito assustada com as dores de cabeça que não se iam embora. Tive muito medo.”


Sarika Karim insiste em saber o que se passa. “Nunca deixei de procurar assistência médica.” Dizem-lhe para ter paciência, que leva tempo, que é preciso tratar das suas dores, que é preciso controlar a ansiedade e o stresse dos seus dias longos e agitados. Sarika só quer ficar como era.


Agostinho Gomes também quer ficar como era, começará a fisioterapia na próxima semana para tentar recuperar a mobilidade do corpo, espremer todas as possibilidades. “Vamos lá ver se fica tudo bem”, desabafa. Ainda se notam algumas dificuldades na fala, anda pelo próprio pé bastante devagar, a deglutição não é o que era. “Para quem caminhava cinco quilómetros aos fins de semana, agora faço cem metros e começo a bufar para todos os lados.”


Tem 58 anos, é de Ermesinde, é operário numa fábrica têxtil, a fazer fechos-ecler há mais de quatro décadas. A 21 de novembro do ano passado, sofreu um AVC, um dia depois de ter feito o teste e de ter dado positivo à covid-19. Na altura, estava em quarentena por indicação das autoridades de saúde depois de um contacto de risco, sem sentir nada de anormal, contudo. “Não tinha nada de sintomas, comi sempre, tinha paladar.”


Naquele sábado, que não esquece, 21 de novembro do mal-amado ano de 2020, tudo mudou de um segundo para o outro. Nesse dia, Agostinho Gomes acordou pouco depois das nove, as lides do costume, não era dia de trabalho, almoçou, depois da refeição, sentou-se no sofá e começou a ver tudo branco. “Não via nada, não via ninguém, e caí para o lado”, rebobina. Reconheceu a mulher e uma amiga que veio em socorro, ver o que se passava, dar uma ajuda. Chamaram os bombeiros. Agostinho apagou. Não conseguia falar, dizer o que sentia, entrou no hospital sem saber em que sítio era, onde estava. O lado direito do seu corpo estava paralisado por causa do acidente vascular cerebral. Entrou no Hospital de Santo António, cinco dias depois foi transferido para o São João, também no Porto.


Infetado pelo novo coronavírus e um AVC. Exames e mais exames, dez dias internado, sem passar pelos cuidados intensivos. Teve alta e continuava infetado. “Entrei com covid e vim para casa com covid. Um AVC em cima da covid, uma coisa em cima da outra”, lamenta. Uma semana depois, estava negativo.


O historial clínico não está totalmente limpo. Agostinho Gomes toma medicação para o ácido úrico há oito anos e, volta e meia, as tensões sobem quando o stresse aumenta, diz. Nada de grave, nada de episódios urgentes, nada como agora. O AVC durante a infeção pelo novo coronavírus virou-lhe a vida do avesso. “A própria fala, tenho dificuldades em falar, ando pelo próprio pé, mas mais devagar, é um pé à frente do outro. Custa-me mais da perna do que do braço e os joelhos não dobram sozinhos.”


Agostinho Gomes não gasta tempo a tentar encontrar uma associação entre o novo coronavírus e o AVC. “Os exames estão todos no hospital e devem dizer alguma coisa.” Não perde dias a pensar nessa relação, a sua atenção está focada em voltar a ser o homem e o operário que era. “Foi um grande susto, foi sim. Veio levezinho, se tivesse vindo mais pesado, ia desta para melhor.”



Tudo muda de repente, de um dia para o outro


O novo coronavírus é agressivo, penetra no cérebro, tem capacidades que outros agentes patogénicos não têm. E ainda não se sabe se poderá adormecer no cérebro, despertar e causar lesões neurológicas. “O sistema nervoso central e periférico pode ser um alvo da doença”, avisa Luís Maia, neurologista do Hospital de Santo António, Centro Hospitalar Universitário do Porto. “O próprio vírus tem capacidade de invadir o cérebro e pode gerar uma resposta imunológica mais tardia que pode comprometer alguma função cerebral”, acrescenta.


A infeção por covid-19 causa complicações neurológicas na fase aguda da doença, quer em doentes internados, quer em pacientes acompanhados em ambulatório. Isso é claro e tem preocupado a comunidade científica e os médicos que estão no terreno desde a primeira vaga.


“A nossa perceção é que há perturbações de sono, alterações do comportamento e algumas alterações cognitivas. Há funções executivas que estão a ser afetadas.” Quem sente na pele, sabe disso, e quanto mais exigentes são as funções, mais se notam certas incapacidades. E são alterações que não se verificam em outras infeções víricas. “Isto é novo e é flagrante”, sublinha Luís Maia, que também trabalha no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, da Universidade do Porto, e está envolvido num projeto colaborativo que tenta perceber se há alguma suscetibilidade genética dos doentes para estes fenótipos neurológicos.


José Alves Grilo, 76 anos, sofre de Alzheimer há pelo menos um ano, quando a doença foi diagnosticada, e tinha uma vida relativamente autónoma em casa, em São João do Estoril. Na semana passada, foi internado num hospital numa ala de covid-19. O início deste ano tem sido atribulado, bastante pesado. A 4 de janeiro, José Grilo e Maria de Lurdes, a mulher, fazem o teste de covid-19. Ele dá positivo, ela negativo. Ela repete e continua a dar negativo.


Nessa semana, tudo muda para José Grilo. Marta Grilo, a filha, conta as alterações abruptas no modo de estar e de ser do pai. “As mudanças são brutais. O meu pai tinha uma vida relativamente autónoma, comia sozinho, ia à casa de banho sozinho, ele e a minha mãe passeavam a pé, pelas redondezas, já não conduzia.” Tratava da sua higiene diária. A partir dessa segunda-feira, a primeira de 2021, e do momento da surpresa da infeção, tudo se alterou. “Desde essa altura, começámos a sentir diferenças no seu comportamento, em termos de autonomia, mais limitado, precisava cada vez mais da minha mãe.”


Marta Grilo continua na primeira semana do ano. Na quinta-feira, José Grilo sofre uma queda sem tempo para alguém perceber o que estava a acontecer. Sai da casa de banho, diz que vai cair, que vai cair, desequilibra-se, cai, e sofre um corte na cabeça. Tudo muito de repente, sem tempo para o segurar, para lhe pôr a mão, para travar a queda do corpo. Hospital, ala covid, a família a alertar que se tratava de um doente de Alzheimer, com necessidades específicas. “Sentia-se desconetado e com o nosso consentimento veio para casa.” Doze horas depois de ter dado entrada e de ter sido tratado ao ferimento na cabeça.


“Notámos que veio para casa muito alterado. Uma apatia, uma sonolência constante, não comia, nós é que lhe tínhamos de lhe dar comida à boca, chegou a ser agressivo connosco”, recorda. Várias hipóteses vieram à cabeça da família. Podia ser uma situação traumática e podia melhorar, mas não melhorou. Podia ser resultado da queda, podia ser a infeção pelo novo coronavírus. E o Alzheimer evolui de forma progressiva, não desta maneira.


“Não é nada normal. Uma pessoa não fica assim de um dia para o outro. E de um dia para o outro, o meu pai perdeu completamente a autonomia, parecia quase um vegetal”, realça Marta Grilo. Uma consulta de neurologia e a indicação de que era preciso levar o pai ao hospital. Aquela apatia, aquela falta de reação, aquela sonolência. Nada disso era normal.


José Grilo parecia outra pessoa. “Desde que ficou infetado, a sua vida tem vindo a regredir”, reconhece a filha. E a parte psicológica é muito importante, o acompanhamento é essencial para a família. Entretanto, José Grilo fez um novo TAC e soube-se que o seu estado não resulta da queda e do corte que fez na cabeça. Na infeção provocada pela covid-19 pode estar a explicação para o que lhe está a acontecer. José Grilo deverá continuar em vigilância.



Fadiga, cefaleias, alterações de humor, seis meses depois


“A patologia é muito diversificada e muito heterogénea”, adianta Martinho Pimenta, neurologista no Hospital CUF Tejo e na Clínica CUF Belém. Tanto pode passar quase despercebida, assintomática, como pode causar lesões graves. “Pode haver casos de encefalite e de AVC isquémico e hemorrágico e há aqui uma agressão do sistema nervoso na parte vascular”, refere.


O neurologista faz consultas, não está em internamentos nem em urgências, e tem recebido cada vez mais doentes que estiveram infetados com covid-19. A maior parte recupera, alguns mantêm os sintomas semanas ou mesmo meses depois da infeção. “Há alguns casos que tiveram o SARS-CoV-2 e os sintomas persistem meses depois de terem negativado. São doentes com queixas de cansaço, dores de cabeça, tonturas.” “A manifestação clínica é muito heterogénea”, descreve.


Há queixas que persistem quando se sabe que este novo coronavírus atinge fundamentalmente o trato respiratório. E ainda há pouca literatura publicada sobre o envolvimento e o grau de compromisso cerebral da covid-19 e o sistema nervoso central e periférico. Qual a capacidade de invasão do novo vírus se de forma direta, até porque a porta de entrada pode ser o sistema olfativo, ou de maneira indireta através de mecanismos neurológicos. “São necessários mais estudos neuropatológicos para conseguir perceber quais são os alvos que o SARS-CoV-2 pode atingir e quais os mecanismos que invadem o sistema nervoso”, salienta Martinho Pimenta.


As complicações a longo prazo, decorrentes ou não da primeira fase da doença, estão em análise, em avaliação. Tenta-se perceber se, depois da infeção, o vírus volta a atacar. “Os sintomas neurológicos não estão necessariamente ligados à gravidade da doença”, comenta o neurologista Luís Maia, do Santo António.


Uma infeção grave deixa sequelas. O corpo prepara-se para o combate a um vírus, a uma bactéria, a um parasita. O sistema imunitário quebra e a inflamação surge como resposta ao ataque. E quando o ataque é agressivo, os danos acontecem. O novo coronavírus continua a ser esmiuçado pela ciência, mais de cem centros internacionais investigam, de forma coordenada, os impactos da covid-19 no cérebro, procura-se detalhar os efeitos secundários da infeção. E tudo indica que o seu impacto na saúde é bem mais forte do que o de uma gripe.


“Há sinais de inflamação das membranas que cobrem o cérebro que podem interferir com o funcionamento dos neurónios, ou seja, como a pessoa sente e pensa”, assinala Ricardo Reis, neurologista do Centro Hospitalar São João, no Porto. O novo vírus causa um estado pré-trombótico que altera o fluxo sanguíneo e as células não recebem oxigénio suficiente. “Conseguimos perceber que parece aumentar o risco de eventos de AVC isquémico, mais do que hemorragias”, observa o clínico.


O risco de AVC terá uma maior incidência do que noutras infeções víricas. É o que se pensa, neste momento. Momentos de agitação e de confusão, alterações neurológicas e nas funções cerebrais. Tudo isso tem vindo a ser descrito. Há outras situações, mais raras, que podem também acontecer, como inflamação cerebral, encefalite, doenças inflamatórias. Até ao momento, as alterações cognitivas estão documentadas em menor grau.


A perda de olfato, a perda do paladar, tonturas, e dores de cabeça são perturbações, sustenta, “muito frequentes durante a infeção e que permanecem várias semanas e meses após a infeção.” Segundo Ricardo Reis, há estudos que demonstram fadiga e alterações de humor seis meses após o internamento por covid-19. Há doentes que se queixam dessas mudanças. “Sentem que estão menos capazes de executar as suas tarefas do dia a dia, têm mais dificuldade em raciocínios mais complexos.”


O vírus causa, de facto, inflamação que pode provocar pequenas lesões sistémicas e que pode interferir na memória, por exemplo. “A infeção é uma disrupção muito grande de vida da pessoa e das suas rotinas”, frisa Ricardo Reis.


O vírus invade o cérebro. Ponto final. Embora a patologia neurológica associada a vírus não seja nova, tem sido constatada em epidemias anteriores, o novo coronavírus tem as suas particularidades. É mais intenso, é mais agressivo. “Este vírus tem uma incidência mais elevada de manifestações neurológicas do que outros vírus”, enfatiza Vanessa Oliveira, neurologista do Santo António, que lidera o Projeto NeuroCOVID da Região Norte do país. Um projeto que integra mais unidades hospitalares e que tenta identificar e caracterizar as manifestações neurológicas provocadas pela covid-19. Porque é necessário perceber-se a dimensão do problema, porque é essencial tentar entender o que se passa.


Na fase aguda, e numa avaliação retrospetiva, verificou-se que um terço dos doentes internados, em cerca de 1 200, apresentou algumas manifestações neurológicas como cefaleias, alterações de consciência e delírios, com bastante frequência. Os AVC e as crises epiléticas foram menos frequentes, contudo clinicamente relevantes. A análise revelou ainda que a mortalidade e a incapacidade dos doentes internados com manifestações neurológicas eram mais elevadas.


Por outro lado, no ambulatório do Centro Hospitalar Universitário do Porto, no caso dos doentes que não necessitaram de internamento por causa da covid-19, verificou que dois terços dos cerca de 500 pacientes avaliados tiveram perda do olfato e do paladar, alterações no sono e cefaleias. Há alterações comportamentais e cognitivas que têm vindo a ser identificadas nestes doentes, mas são menos frequentes.


A comunidade científica continua de olho neste novo vírus, na infeção que causa, nas suas consequências e impactos. Com algumas evidências, ainda poucas, e muitas incertezas, dúvidas, perguntas. E a forma como o organismo reage a médio e longo prazo é sempre uma incógnita. Seja como for, o Mundo insiste em perceber como o novo coronavírus se move e o seu modus operandi. Há muitos cérebros dedicados a esta missão.


Fonte: Notícias Magazine

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