Como a COVID-19 afeta a residência médica em Neurologia


Paulo Freitas, residente do terceiro ano de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo

O Brasil é um país gigante. São estados, municípios e cidades com as mais variadas realidades e desafios. A pandemia do novo coronavírus chegou de forma avassaladora, atingindo cada canto do País em intensidades diferentes e causando mudanças na rotina dos profissionais de saúde.


Para compreender as adversidades provocadas pela COVID-19 e como o vírus tem afetado a residência em Neurologia, entrevistamos professores e residentes de três regiões diferentes do País. Os docentes precisaram reinventar-se para ensinar e os alunos sofreram adaptações para prosseguir com os estudos.


SUDESTE, SÃO PAULO


A capital paulista é uma das mais atingidas pela pandemia. Considerada o centro financeiro do Brasil, São Paulo é a cidade mais populosa do País e o epicentro da COVID-19. Nesse contexto, os hospitais locais precisaram readequar as dinâmicas e atividades.


Segundo Rubens Gagliardi, presidente da Associação Paulista de Neurologia (APAN) e médico chefe da clínica neurológica da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o coronavírus alterou muita coisa na residência, especialmente a parte ambulatorial do hospital. “A Neurologia não foi paralisada, mas algumas atividades que não são consideradas emergências precisaram ser suspensas para evitar a circulação de pacientes. Isso, evidentemente, compromete o aprendizado do residente e teremos que compensar de outra maneira, aumentando o tempo de formação ou descobrindo outra forma de atividade”, explica.


Diante da necessidade do distanciamento social, a paralização de certos atendimentos a pacientes da Santa Casa se refletiu, consequentemente, na diminuição das atividades acadêmicas de discussões de casos baseados nas consultas. Práticas como estágios dos residentes, ambulatório e atividades de laboratório precisaram ser interrompidas. As demandas mais urgentes, que não podem esperar até o relaxamento do isolamento, recebem orientações via telefone.


Outro aspecto afetado pela pandemia é a frequência dos residentes nos hospitais. Para evitar ao máximo o contato com pessoas possivelmente infectadas, foi adotado um rodízio. “Eles vêm para a Santa Casa de acordo com as escalas. Os plantões continuam normais e as emergências permanecem sendo atendidas”, esclarece. Ainda conforme Gagliardi, para compensar a diminuição da carga horária prática, a tecnologia foi recrutada e todas as atividades didáticas são realizadas on- -line. “Um de meus maiores desafios é passar o máximo possível de conteúdo on-line e tem funcionado bem.”


Paulo Freitas é residente do terceiro ano de Neurologia da Santa Casa. Para ele, mesmo com a compensação por meio de aulas à distância, a situação gera angústia: “Como R3, ficamos na expectativa da finalização da residência, pois não sabemos como será o retorno dos hospitais à rotina. Com certeza teremos algum tipo de prejuízo acadêmico com a diminuição dos ambientes de prática, principalmente as atividades ambulatoriais”.


A despeito da necessidade da readequação da dinâmica hospitalar, o aprendizado permanece. Freitas comenta que aqueles que fazem estágio em emergência, atendendo pacientes de enfermaria e Unidade de Terapia Intensiva (UTI), têm muito contato com as manifestações neurológicas relacionadas à COVID-19: “Isso acaba sendo uma grande oportunidade de aprendizado também”.


Além do mais, os residentes aproveitam para se dedicar mais às atividades de pesquisa e entender o impacto do período de pandemia no tratamento das doenças neurológicas crônicas. “Mesmo a Neurologia não sendo considerada especialidade imediata na assistência aos pacientes com COVID-19, percebemos a importância do neurologista nessa fase. Nos últimos meses, notamos o aumento das demandas de interconsulta para nossa especialidade”, completa Freitas.


SUL, PORTO ALEGRE


Luidia Giacomini, residente do terceiro ano de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

O estado do Rio Grande do Sul assiste ao aumento do número de infectados pelo coronavírus. Mesmo assim, Porto Alegre é uma das cidades com menor incidência de casos confirmados entre todas as capitais brasileiras. A capital gaúcha detém diversos centros de referência para a COVID-19 dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, as residências em Neurologia da cidade são afetadas em intensidades distintas.


Carlos Roberto Rieder é professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde, por conta de outros centros de referência no atendimento da COVID-19, inicialmente não houve grande demanda de casos relacionados à pandemia. No entanto, ao final do mês de maio, os casos de COVID-19 na cidade e no estado se propagaram e a lotação e a reestruturação de leitos de UTI se fizeram necessárias: “O número de casos que era relativamente pequeno quando comparado a outros estados do País se tornou de proporções preocupantes no mês de junho”.


Em relação às doenças neurológicas, observou-se, no começo da pandemia, menor procura aos hospitais, provavelmente em decorrência da baixa circulação por parte da população em ambientes hospitalares. Mesmo em casos graves, como nos acidentes vasculares cerebrais (AVCs), houve um atraso na procura pelos serviços de emergência. Isso, no entanto, não fez com que a demanda de casos neurológicos diminuísse de forma significativa, persistindo um volume relativamente grande de atendimentos pelas equipes da Neurologia. Embora de forma reduzida, em decorrência das medidas de isolamento social, o hospital permaneceu realizando atendimentos ambulatoriais e a assistência nas enfermarias foi mantida. Procedimentos eletivos, tais como implante de estimulador cerebral profundo na doença de Parkinson, foram temporariamente suspensos. Do ponto de vista das atividades ligadas ao ensino, Rieder explica: “Temos evitado o contato nas atividades presenciais, como reuniões semanais, discussões de casos clínicos e seminários. Estamos realizando esses encontros on-line, em diferentes plataformas”.


Segundo Luidia Giacomini, residente do terceiro ano de Neurologia da Santa Casa de Misericórdia, mesmo com a mudança na rotina não houve interrupção total das atividades: “Permanecemos em escala de plantões para não expor toda a equipe no hospital ao mesmo tempo. Reduzimos o atendimento nos ambulatórios para proteger pacientes do grupo de risco, mas, na emergência, a rotina segue igual”.


Com essa nova realidade, uma das adaptações necessárias foi a implementação do uso da tecnologia nos atendimentos: “Passamos a colocar em prática a telemedicina, entrando em contato telefônico com nossos pacientes para saber como estão e se necessitam de algum ajuste no tratamento. É uma mudança e tanto enfrentar a comunicação à distância, já que é muito diferente da avaliação presencial”, comenta Luidia.


Assim, os residentes e docentes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre tentam ao máximo usufruir das atividades teóricas para que as perdas das práticas não causem muitas consequências na formação dos alunos. Como a Neurologia é uma área com grande demanda na emergência, ainda há muito trabalho. “É um momento de provação para todos os profissionais de saúde, porque, além de todo o esforço físico rotineiro, ainda há o grande peso emocional por toda essa situação nova e delicada. Estar exposto e ficar afastado de pessoas queridas é um enorme desafio”, ressalta Luidia.


NORDESTE, SALVADOR


João Luiz de Carvalho, residente do segundo ano de Neurologia do Hospital São Rafael

Salvador é a cidade com o maior número de casos da COVID-19 na Bahia, segundo dados do boletim da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB). Nesse contexto, a taxa de ocupação dos leitos nas UTIs segue elevada e preocupa os profissionais de saúde da região.


O Hospital São Rafael é referência na cidade e oferece serviços especializados de média e alta complexidades em diversas especialidades. Segundo Aroldo Bacellar, coordenador do Serviço de Neurologia e Residência em Neurologia Clínica da instituição, a COVID-19 alterou muito seu dia a dia: “Deixei de ter minha rotina de ir ao hospital diariamente pela manhã e três vezes por semana ao consultório. Com isso, tenho usado a telemedicina para atender os pacientes e, atualmente, a maioria dos telefonemas é para mim. Organizar meu tempo é paradoxalmente meu principal desafio: conseguir participar das múltiplas reuniões, atender os pacientes e ter um momento para leitura”, conta.


O Hospital São Rafael precisou readequar as instalações e transformar a UTI Neuro em uma dedicada integralmente a atender pacientes com a COVID-19. A residência não foi interrompida, mas o impacto está na diminuição do número de pacientes tanto no hospital como nos ambulatórios.


Assim como em São Paulo e Porto Alegre, os residentes se organizaram em escalas para evitar aglomeração e grande parte das atividades didáticas é realizada à distância: “Agora fazemos reuniões, discussões de casos e aulas teóricas por videoconferência. Creio que isso deu mais efetividade aos encontros”, opina Bacellar.


Para João Luiz de Carvalho, residente do segundo ano de Neurologia do hospital, gerenciar as mudanças na dinâmica da residência, na instituição e na própria rotina, tudo ao mesmo tempo, é um enorme desafio. Apesar de haver certo prejuízo, Carvalho acredita que seja moderado em relação a outros lugares do País: “Quando as atividades funcionam normalmente, o aprendizado sempre é maior. Aumentamos a carga teórica e perdemos a parte prática, mas muitos residentes em São Paulo, por exemplo, foram deslocados totalmente de sua área de atuação para tratar pacientes com COVID-19”.


Fato é que o futuro ainda é uma incógnita e provoca dúvidas na grande parte dos residentes quanto à compensação de tempo e ensino. Bacellar explica: “Ainda não temos informações oficiais sobre a extensão do período de residência. Creio que os mais prejudicados serão os residentes do terceiro ano, que, eventualmente, têm estágios complementares e ambulatórios especializados suspensos em decorrência da pandemia”.


Por essa e outras razões, Carvalho enfatiza: “Precisamos aproveitar ao máximo cada momento que estamos no hospital e as aulas teóricas, pois não sabemos o que irá acontecer, se teremos reposição ou não”, comenta.

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