Epilepsia não tem cura, mas pode ter crises aliviadas com terapias certas



Julio Cesar, papa Pio 9, Dostoiévski e Lord Byron. Você saberia dizer o que esses personagens históricos têm em comum? Trata-se da epilepsia.


Caracterizada pela predisposição cerebral permanente em dar origem a crises epilépticas, ela é conhecida desde 2000 anos a.C, já causou muito medo, desconfiança e incompreensão, e ainda fez com que muitos fossem punidos e tratados como párias.


A enfermidade era considerada sobrenatural até que Hipócrates, o pai da medicina, desmitificou a chamada "doença sagrada", declarando sua possível causa: alguma disfunção no cérebro, o que viria a ser confirmado no futuro.


Hoje sabemos que a doença acomete 1% da população em geral, e isso significa que 1 em cada 100 brasileiros tem epilepsia, e ela pode se manifestar igualmente entre homens e mulheres, desde a infância até a idade avançada.


A doença está associada à maior mortalidade, dado o risco de acidentes, traumas, crises prolongadas e morte súbita. Além disso, relaciona-se à depressão e à ansiedade, assim como a problemas psicossociais, que vão desde o desemprego e o isolamento social, até o estigma, entre outros.


Apesar disso, os médicos garantem: para a maioria desses indivíduos, é possível controlar a doença, reduzir os efeitos colaterais dos remédios e as crises, e ter qualidade de vida.


Entenda a epilepsia


O seu cérebro é formado por bilhões de células nervosas (neurônios). E cada uma de suas áreas tem uma função específica: garantir os movimentos, a fala, as emoções, os sentidos, etc..


Para que haja comunicação entre esses neurônios, eles usam impulsos elétricos e sinais químicos, e essas atividades são organizadas e sincrônicas. Quando esse processo ocorre de forma desordenada, ele dá origem a uma crise epiléptica.


Assim, a epilepsia se caracteriza pela permanente predisposição do cérebro em causar crises epilépticas e suas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais.


Saiba como a epilepsia é reconhecida


Para que se possa afirmar que uma pessoa tem epilepsia é preciso verificar a ocorrência das seguintes condições:


  • Ter ao menos 2 crises epilépticas não provocadas em um intervalo maior que 24 horas;

  • Ter 1 crise epiléptica não provocada --e possibilidade de novo evento-- no período de 10 anos após a ocorrência de 2 crises não provocadas;

  • Ter diagnóstico de síndrome epiléptica.


Por que isso acontece?


Em muitos casos a origem das crises é desconhecida (epilepsia idiopática). Contudo, é comum que elas decorram de vários fatores, como os relacionados abaixo (por grupo etário):


Crianças

  • Vários tipos de malformações cerebrais

  • Doenças genéticas

  • Erros inatos do metabolismo (alterações do metabolismo)

  • Infecções congênitas (zika, citomegalovirose, toxoplasmose)

  • Infecções no pós-natal (meningite, encefalite)

  • Má assistência ao parto (sofrimento durante o parto: paralisia cerebral, por exemplo)

  • Tumores cerebrais

  • Traumas

Adolescentes e adultos

  • Malformações

  • Epilepsias genéticas

  • Traumas

Idosos

  • Tumores

  • AVC (Acidente Vascular Cerebral)

  • Traumas

  • Doença degenerativa


Conheça os principais tipos de crises (também chamadas de crises epilépticas)


A crise é um quadro clínico transitório que tem começo, meio e fim, e pode durar alguns segundos ou minutos. Ela decorre de uma descarga anormal de neurônios no cérebro. Tal manifestação é transitória e constitui a crise epiléptica.


Há vários tipos diferentes de crise, a depender da parte do cérebro onde ocorre essa descarga. As duas principais categorias são as seguintes:


Crise generalizada - ela acomete todo o cérebro e pode levar à perda de consciência, além de se fazer sentir por todo o corpo. O fato de acometer todo o cérebro, não necessariamente significa que ela seja mais grave.


Crise focal (ou parcial) - ela advém de apenas uma parte do cérebro e os sintomas aparentes dependerão das funções da região afetada. Esse quadro pode —ou não— evoluir para uma crise generalizada.


Saiba reconhecer os sintomas


Os sintomas e sinais da epilepsia dependem da região cerebral onde a crise começa e, por isso, eles são variados. Por vezes, é até difícil de reconhecê-los. Confira as principais características das crises generalizada e focal:


Generalizada


Motoras

  • Tônica - braços e pernas se tornam rígidos. A crise é rápida e, em geral, não há perda de consciência;

  • Clônica - braços e pernas entram em um "modo" mais lento. Pode haver perda de consciência;

  • Tônico‐clônica - todo o corpo convulsiona e há perda de consciência. Popularmente chamada de crise convulsiva ou convulsão, é a mais fácil de se reconhecer e também a mais grave porque pode haver queda e ferimentos;

  • Mioclônica - músculos isolados podem apresentar espasmos. Geralmente não há perda de consciência. A sensação é a de choque, adormecimento do músculo ou mesmo um espasmo forte que faz uma xícara voar longe;

  • Atônicas - aqui, uma parte de determinado músculo falha --a perna pode não responder, e pode haver perda de consciência e queda.

Não motoras

  • Ausência - esse tipo de crise é considerado leve e se caracteriza por uma breve "desligada". O sintoma dura de 10 a 20 segundos, e a pessoa se torna não responsiva, mantém os olhos abertos e dá piscadas rápidas;


Focal


Todas as características das crises focais são chamadas pelos médicos de aura. Veja a seguir:

  • Movimento involuntário do braço

  • Distúrbios sensoriais

  • Mudanças na visão - a pessoa vê bolinhas coloridas, imagem distorcida, alucinação visual

  • Perda de foco

  • Perda da audição

  • Percepção de odores diferentes

  • Ansiedade

  • Angústia

  • Medo

  • Tristeza

  • Alegria incontida

  • Alucinação

  • Tontura

  • Sensação de déjà-vu


Quem precisa ficar atento?


A enfermidade afeta pessoas de ambos os gêneros, especialmente na idade avançada. A razão para isso é a maior frequência de AVC, doenças neurodegenerativas e tumores entre idosos.


Já as crises focais são mais comuns entre crianças e adultos. Por vezes, pessoas de diferentes gerações de uma mesma família podem ter epilepsia, o que sugere uma herança genética.


O que pode desencadear uma crise?


Para muitas pessoas ela se manifesta de modo aleatório. Contudo, algumas situações podem facilitar o seu aparecimento. Confira:


  • Estresse

  • Falta de sono

  • Uso de álcool

  • Alguns tipos de medicamentos

  • Drogas ilegais

  • Ciclo menstrual (entre as mulheres)

  • Flashes de luz (raro)


Quando procurar ajuda?


Na crise tônico-clônica (convulsão), todo o corpo convulsiona e há perda de consciência. Assim, é fácil reconhecer que algo não está bem e precisa ser investigado. Mas nem sempre é assim.


Como os sintomas da epilepsia são variados e podem passar despercebidos, é preciso ficar atento a sinais de alerta específicos. Entre os adultos, eles podem se apresentar como a percepção de cheiros diferentes —geralmente de borracha queimada ou flores mortas— ou o formigamento do braço, dor epigástrica (na região do estômago), sem a presença de outras manifestações ou relação com doenças já existentes.


Já entre os idosos, o sinal pode ser algum episódio breve de confusão mental em indivíduos que estão sempre bem. As explicações são do neurologista Luis Otávio Caboclo, professor de neurologia da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein e membro titular da ABN (Academia Brasileira de Neurologia).


"Nas crianças e adolescentes, uma queda súbita no rendimento escolar não explicada ou a ocorrência de episódios de alteração da consciência levam a pensar em crise epiléptica. Isso porque, nesses grupos, elas são, geralmente, breves e transitórias", observa o médico. "É como se eles perdessem o contato com o ambiente, deixassem de interagir ou responder aos estímulos exteriores", completa.


O profissional treinado para avaliar esses quadros é o neurologista, mas nem sempre se tem acesso a essa especialidade em todas as regiões do país. Assim, ao observar em si e em pessoas da sua convivência algum dos sintomas descritos, fale com um médico generalista ou um pediatra. A depender do quadro, esses profissionais poderão encaminhá-lo para o especialista.


Como é feito o diagnóstico?


Na hora da consulta o médico fará o levantamento de seu histórico de saúde bem como o exame físico. Os principais elementos para se definir o diagnóstico são os dados de saúde do paciente e das crises. Em geral, as informações coletadas incluem também relatos de familiares.


O profissional ainda solicitará exames complementares. Nesses quadros, os mais importantes são o eletroencefalograma —ele ajuda a identificar qual é o tipo de crise— e a ressonância magnética. Quando este último exame não está disponível, a tomografia poderá substituí-la.


Em casos mais específicos, outros testes possíveis são o exame de líquor e o teste genético.


Como é feito o tratamento?


O objetivo terapêutico é controlar as crises ou cessá-las, além de evitar efeitos colaterais dos remédios.


A estratégia terapêutica se baseia no uso de medicamentos que são chamados de antiepilépticos ou fármacos anticrise. São exemplos deles a carbamazepina e a fenitoína, o ácido valproico e a lamotrigina, entre outros. O tempo do tratamento varia e depende das características das crises de cada paciente.


Quem tem epilepsia sofre restrições em sua rotina?


Para 2 em cada 3 pacientes com epilepsia, as crises são controladas com a medicação.


Essas pessoas têm vida normal, desde que atendam às orientações médicas, que se resumem em cuidados como usar correta e regularmente a medicação, evitar excesso de bebidas alcoólicas e manter uma rotina de sono saudável.


Por outro lado, 1 em cada 3 indivíduos com essa enfermidade podem ser resistentes ao tratamento com remédios. Para estes, as crises não serão completamente controladas. Assim, eles são aconselhados evitar dirigir ou entrar no mar ou na piscina sozinhos, por exemplo, porque há risco de acidentes.


Alternativas de tratamento para pacientes resistentes


As cirurgias de epilepsia são indicadas para quem é resistente aos medicamentos, e quando as crises são descontroladas e incapacitantes. João Pereira Leite, professor titular de neurologia do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP da USP, explica que tais práticas são denominadas remoção de foco epileptogênico e calosotomia.


A primeira delas consiste na remoção da região que gera as crises, conhecida como região epileptogênica. "Ela pode ser apenas um pequeno bloco de tecido cerebral que causa as crises, mas, às vezes, poderá ser uma região mais ampla, correspondendo a um lobo cerebral ou mais de um lobo. Porém, a depender da área envolvida, a medida não é possível porque afetaria funções como a fala ou a motricidade", diz o médico.


Já a calosotomia é indicada para pacientes que apresentam crises frequentes, com traumas consequentes às quedas que se repetem. Leite esclarece que nessa cirurgia o neurocirurgião secciona as fibras que conectam um hemisfério cerebral ao outro. Assim, as crises não mais se propagam e há redução de suas gravidades.


"De modo geral, a calosotomia tem um efeito paliativo, porque atenua a gravidade e a frequência das crises", conclui Leite.


Outra alternativa é a estimulação do nervo vago. A técnica visa implantar no tórax do paciente um equipamento estimulador que atua no cérebro por meio do estímulo desse nervo. Mas há outras formas de neuromodulação invasivas (estimulação elétrica com eletrodos implantados na profundidade do cérebro), ou não invasivas (estimulação elétrica por corrente contínua ou estimulação magnética transcraniana).


Para parte dos pacientes com indicação cirúrgica, ela poderá ser curativa. Em geral, essas práticas são realizadas por especialistas que integram grupos de pesquisa ou centros de atenção mantidos pelas escolas de medicina. Além desses procedimentos, o uso de fármaco à base de canabidiol (fármaco extraído da maconha) é outra opção que pode ser considerada durante o tratamento.


Dieta cetogênica funciona?


As evidências científicas disponíveis até o momento sugerem que a dieta cetogênica é promissora e também uma opção válida entre pacientes resistentes ao tratamento, para os que não podem fazer cirurgia e, também, para as crianças.


Os objetivos de sua indicação são a redução das crises e também do uso de medicamentos. As pesquisas disponíveis mostram que 1 em cada 10 pessoas conseguem ficar livres de crises, e 4 em cada 10 apresentam redução delas pela metade.


A dieta é rica em gorduras, adequada em proteínas e pobre em carboidratos. Restritiva e de difícil adesão, ela só deve ser feita com o devido acompanhamento de um nutricionista.


Cuidados com mulheres


Na hora do tratamento, os médicos devem avaliar de forma mais cuidadosa esse grupo, especialmente as pessoas em idade reprodutiva porque as mudanças hormonais podem desencadear crises no período menstrual. Além disso, as crises tônico‐clônicas generalizadas, quando não controladas, podem ser prejudiciais ao feto.


"É preciso, também, estar atento a alguns remédios utilizados para o tratamento da epilepsia. Isso porque eles são considerados teratogênicos, isto é, podem levar à malformação fetal. Outra questão é a interação deles com anticoncepcionais, reduzindo seus efeitos", fala o neurologista Fábio Porto, do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São).


Isso não significa que mulheres com epilepsia não possam engravidar. A sugestão dos especialistas é que a gestação seja discutida e programada com o médico para que ele possa ajudar a tomar decisões sobre o melhor momento para a gravidez.


Além disso, cabe ao profissional avaliar quais seriam as opções para a continuidade da terapia, protegendo a futura mãe e também o bebê.


Tive uma convulsão. Isso significa que tenho epilepsia?


Quando ocorre apenas uma crise convulsiva, ela pode ou não ser sinal de epilepsia. Por exemplo, as convulsões podem ocorrer em crianças menores de 2 anos, e estes quadros podem ter como causa febre alta ou níveis anormais de açúcar no sangue (glicose), cálcio, magnésio, sódio ou vitamina B6.


Já uma pessoa com apenas uma crise pode ter a enfermidade quando ela tiver um risco desse quadro se repetir acima de 60%, no prazo de 10 anos. A explicação é de Carlos Alexandre Twardowschy, neurologista e professor da Escola de Medicina da PUC-PR.


Dá para prevenir?


Algumas vezes, sim. Veja, a seguir, as formas mais comuns de reduzir o risco de ter epilepsia:


  • Tenha uma gravidez saudável, seguindo as orientações de seu médico e cuidando para ter melhores condições de tratamento na hora do parto;

  • Evite práticas que possam causar traumas na cabeça. Use acessórios que possam proteger a região;

  • Reduza o risco para o aparecimento de doenças do coração ou AVC;

  • Mantenha a carteira de vacinação em dia;

  • Cuide da higiene das mãos ao preparar alimentos para evitar a cisticercose.

Para prevenir as crises, caso já esteja em tratamento:

  • Use o medicamento na forma indicada pelo médico;

  • Evite bebida alcoólica em excesso;

  • Adote regime de sono regular;

  • Pratique atividade física regular;

  • Aprenda alguma técnica de controle do estresse e coloque-a em prática;

  • Mantenha um diário para aprender a reconhecer os possíveis desencadeadores.

  • As pessoas podem morrer de epilepsia?

  • A maioria das pessoas com essa enfermidade tem uma vida normal. Para alguns pacientes, porém, o risco de morte pode ser aumentado devido à falta de controle das crises. Os fatores relacionados a esse evento são problemas de saúde como AVC, tumor, queda e trauma decorrentes de acidentes durante uma crise convulsiva.


Outras situações relacionadas são convulsões de mais de 5 minutos (ou repetidas), conhecidas como status epilepticus. Esse evento pode acontecer quando o tratamento da epilepsia é interrompido bruscamente.


Uma situação rara é a morte súbita. A condição é conhecida como SUDEP, sigla em inglês para morte súbita e inesperada na epilepsia. Até o momento não se sabe exatamente porque isso acontece, mas há indícios de que ela decorra da mudança dos batimentos cardíacos durante a crise convulsiva (o que também pode acontecer para quem não tem crises). O quadro é mais comum entre pessoas cujas convulsões não estejam controladas.


Fontes: Luis Otávio Caboclo, neurologista e neurofisiologista clínico, doutor em neurologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), professor de neurologia da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein e membro titular da ABN (Academia Brasileira de Neurologia; Fábio Porto, neurologista do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Carlos Alexandre Twardowschy, neurologista e professor da Escola de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); João Pereira Leite, neurologista, professor titular, chefe do departamento de neurociências e ciências do comportamento e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Neurologia da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP). Revisão técnica: Luis Otávio Caboclo.


Referências: Ministério da Saúde; CDC (Centers for Disease Control and Prevention); InformedHealth.org [Internet]. Cologne, Germany: Institute for Quality and Efficiency in Health Care (IQWiG); 2006-. Epilepsy: Overview. 2016 Jan 13 [Updated 2019 Dec 5]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK343313/; Martin K, Jackson CF, Levy RG, Cooper PN. Ketogenic diet and other dietary treatments for epilepsy. Cochrane Database Syst Rev. 2016 Feb 9;2:CD001903. doi: 10.1002/14651858.CD001903.pub3. Update in: Cochrane Database Syst Rev. 2018 Nov 07;11:CD001903. PMID: 26859528.


Fonte: UOL Viva Bem

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