Estudos do REDONE.br ganham reconhecimento internacional

Atualizado: Fev 15



Em março de 2020, no início da pandemia, os neurologistas que trabalham com ênfase em doenças desmielinizantes, como esclerose múltipla (EM) e neuromielite óptica (NMO), compartilhavam uma série de dúvidas importantes para o adequado manejo clínico da doença. Alguns exemplos:

  • Os tratamentos imunomoduladores e imunossupressores poderiam estimular a suscetibilidade ao Sars-CoV-2?

  • A COVID-19 seria mais grave nos pacientes portadores de EM ou de NMO em tratamento, resultando em desfechos negativos?

  • A COVID-19 seria ainda capaz de piorar o quadro neurológico preexistente?


Em busca de respostas com respaldo científico a esses e outros pontos, o REDONE.br (Registro Brasileiro de Doenças Neurológicas), por iniciativa de sua coordenadora, dra. Doralina Brum, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) da Unesp, reuniu mais de 70 pesquisadores de diversos regiões brasileira. Eles rapidamente se puseram a trabalhar em âmbito nacional, envolvendo em torno de 50 centros. O fruto do trabalho refletiu no artigo nominado “Incidência e evolução clínica da doença coronavírus 2019 em uma coorte de 11.560 pacientes brasileiros com esclerose múltipla” publicado na Multiple Sclerosis Journal. O artigo abordando o impacto da COVID-19 no espectro das desordens da neuromielite óptica está na fase final de revisão também em revista de qualidade indiscutível.


Adicionalmente, o REDONE.br fez parceria com entidades internacionais em uma iniciativa global de compartilhamento de dados em pacientes com esclerose múltipla e COVID-19, passando a figurar entre uma dezena de registros europeus e da América Latina. Essa parceria também tem resultado em publicações como COVID-19 in people with multiple sclerosis: a global data sharing initiative, no Múltiple sclerosis Journal. Outros artigos já estão submetidos, em revisão no momento.


Em um curto intervalo, vimos que os pacientes com esclerose múltipla evoluíam de maneira similar ao restante da população brasileira, mesmo em uso de medicação durante a pandemia. Na primeira análise, a amostra foi pequena, precisamos avançar para confirmar este resultado em uma amostra de pacientes com EM e COVID-19”, pontua a dra. Doralina.


Para alcançar esses resultados, houve ação determinada e pioneira dos neurologistas para alimentar a base de dados do REDONE.br com informações sobre pacientes com esclerose múltipla e neuromielite óptica infectados pela COVID-19, a fim de compreender melhor a infecção e desenvolver diretrizes adequadas.



Capilaridade


Todos os resultados foram inseridos em um mapa interativo e sincronizados entre os colaboradores das diversas regiões do país, possibilitando a compreensão ampla do avanço da doença no cenário nacional.


“Precisávamos de informações que não existiam, ao menos não organizadas. O REDONE.br foi a ferramenta-chave para responder às perguntas da sociedade brasileira, recorrendo a meios para além dos estudos internacionais que não refletiam a realidade da nossa população”, ressalta dr. Felipe von Glehn, coordenador do Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e integrante do projeto.



Ciência


A plataforma foi alimentada constantemente com dados epidemiológicos, clínicos, presenças de surtos e gravidade da doença. Segundo o dr. von Glehn, foi um ano de conquistas em termos de captação de dados e modernização da ferramenta digital. Enfim, possibilitou-se uma interface mais intuitiva e fácil de navegar, disponibilizada em diferentes sistemas operacionais.


Ainda de acordo com ela com a dra. Doralina, a vocação do REDONE.br é atuar em âmbito nacional, com amostra representativa da população e respondendo questões simples e objetivas para as quais há uma lacuna de conhecimento.


“Esses elementos são uma fórmula bem-vinda à comunidade científica e à literatura atual, pois estamos na era da compreensão das doenças a partir de big data”, pontua. O assunto pode ter sido bem estudado em outras populações, caucasianas, africanas ou asiáticas, mas não foram bem esclarecidas em populações miscigenadas como a brasileira. Pode também ser de um assunto emergente como a COVID-19, no qual a comunidade científica tinha todas as perguntas sem respostas, por ser algo novo e que assolou o mundo, quase simultaneamente. Ter uma plataforma online, 24/7, à disposição dos neurologistas em âmbito nacional é um avanço para o modo como abordamos a ciência no Brasil”.


Para dra. Maria Fernanda Mendes, coordenadora do Ambulatório de Doenças Desmielinizantes da Santa Casa de São Paulo e pesquisadora do projeto, a publicação dos dois estudos em revistas científicas de referência é uma vitória para o grupo e, principalmente, para a Academia Brasileira de Neurologia.


“Fomos elevados enquanto entidade de representatividade qualificada nas publicações internacionais”, destaca.


Ainda de acordo com ela, a participação no REDONE.br significa ter um olhar voltado para a condição de saúde no Brasil, fazendo indagações aos nossos pacientes que não são feitas em outras partes do mundo.


Dra. Lis Campos, professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do programa, comenta que “o projeto veio para mostrar que, mesmo em um país tão grande e distinto, é possível organizar trabalho conjunto rico e promover produção científica de relevância”.



Caminhos


O esforço em dirimir dúvidas dos neurologistas é um desafio diário, que não se esgota, para os membros do projeto. Com o aumento da testagem e o início da vacinação, agora a ideia é investir em estudos que tragam respostas sobre o desenvolvimento da infecção nos pacientes que tiveram a confirmação do diagnóstico, além de analisar a resposta da vacina, aumentando a amostra pesquisada.


Dra. Nise Alessandra Souza, vice-coordenadora do DC de Neuroimunologia e integrante do projeto, acentua que o Brasil é o segundo país mais acometido pela COVID-19: “Essa iniciativa é de extrema importância. A confiabilidade e a facilidade da plataforma do REDONE.br foram essenciais para os primeiros estudos, e queremos avançar”.


Para dra. Doralina, o foco principal do registro é dialogar com o Ministério da Saúde em prol da boa prestação de serviços em saúde.


“Temos uma plataforma robusta, acessível e compartilhada a todos os neurologistas, colaboradores e pesquisadores. Queremos contribuir à formação de políticas públicas com informações representativas sobre nossa população”, afirma.


O presidente da ABN, dr. Carlos Rieder, já registrou inúmeras vezes o valor dessas ações e a relevância de se fortalecer permanentemente o REDONE.br:


“O DC de Neuroimunologia está colhendo os primeiros frutos, e esse é um incentivo. Temos investido para que, cada vez mais, outros grupos de trabalho em diferentes áreas tenham as condições necessárias para desenvolver projetos de relevância para o bem-estar e qualidade de vida da sociedade brasileira”.


Como pode ser observado, o comprometimento da ABN com o projeto REDONE.br é uma realidade que permitiu que chegasse até aqui.



Passos Futuros: continuidade do projeto COVID19 e outros grupos de pesquisa


O projeto COVID-19 se manterá atualizando os dados em períodos determinados de modo a gerar novos resultados sobre os desfechos da doença na EM e na NMO, focando ainda em outros aspectos relevantes relacionados, como as vacinas e possíveis eventos adversos neurológicos.


Para alcançar este objetivo o ABN/REDONE.br já está convidando os membros da sociedade interessados em fazer parte do grupo de trabalho de COVID-19 e VACINAS.


Além das doenças desmielinizantes, o REDONE.br está trabalhando em conjunto com diferentes grupos de pesquisa para a implementação das abordagens de outras doenças pela plataforma, como esclerose lateral amiotrófica e doenças raras.

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