Imersão no mundo da Doença de Alzheimer

Longa argentino O Filho da Noiva retrata a questão com sensibilidade e realismo. Uma boa opção para ver em casa em tempos de isolamento



Produzir um longa-metragem abarcando questões delicadas, como as relações humanas e a Doença de Alzheimer seria um desafio para os melhores cineastas do planeta. Alguns fariam belas obras, com certeza. O que não podemos afirmar é que chegariam a um acabamento tão requintado, sensível e realista quando ao que o diretor Juan José Campanella obteve em O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, 2001).


Se você gosta de cinema, de boas histórias e não viu ainda, a hora é já. É uma obra prima, que mexe com o coração e chama à razão a cada diálogo. Talvez, em virtude de sua narrativa emocionante, foi merecedor de indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, na oportunidade de seu lançamento. Bateu na trave, perdendo para Terra de Ninguém (No Mans Land, de Danis Tanovic, 2001) – excelente, também.


Aqui no Brasil, ganhou o Festival de Gramado na categoria Público e Crítica, tendo sua protagonista, Norma Aleandro, conquistado a premiação de Melhor Atriz. Além de ser eleito pelo público como o Melhor Filme da Mostra BR de São Paulo.


O Filho da Noiva tem como fio condutor o cotidiano, o tosco cotidiano de Rafael Belvedere, que chega aos quarenta anos, em aguda crise profissional e pessoal. Ele gerencia o restaurante de seu pai, Nino, em paranoia, enquanto empurra com a barriga relações com a mãe, com a sua filha, com sua ex-mulher, com a namorada e com o mundo.


Quando do início da trama, a mãe dele, Norma, já apresenta sintomas de Doença de Alzheimer, a começar com perda de memória. Simultaneamente, outros fatos fortes se sucedem. O restaurante vai mal das finanças e Rafael sofre um infrato. É aí que decide dar uma guinada em seu destino.


Inspiração


O que dá à obra ares de veracidade e correção à abordagem do longa é a própria trajetória do diretor Juan José Campanella. A mãe dele sofre de Doença de Alzheimer. Outro diferencial é a magistral interpretação de Norma Aleandro.


Quando convidada para o papel, ela temia não alcançar um ápice como a personagem Norma. Campanella, ao saber disso, a colocou em seu carro, escondida no banco de passageiros, para um passeio com direito a prolongada conversa com sua mãe. Começou assim o processo de imersão. A atriz foi criando traços intimistas, aperfeiçoando a composição de personalidade, vivenciando o Alzheimer e ganhando segurança.


De acordo com a coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento, Jerusa Smid, o filme possui vários pontos positivos, como dosar cenas de comédia e drama na medida certa, mantendo os espectadores sempre envolvidos. A interpretação de Norma Aleandro no papel de uma doente em fase de moderada a grave da doença de Alzheimer é excelente.


“A presença de sintomas comportamentais parcialmente controlados, característicos dessa fase da doença, associada ao olhar vago, fácies hipomímicas, dificuldade motora, nos fazem até imaginar a prescrição da senhora Norma. A busca de memórias (e a falta delas) é o tema central nas diferentes histórias paralelas. Um reencontro inusitado faz Rafael trazer memórias da infância e o impulsiona a resolver conflitos com as figuras femininas de sua vida, inclusive a mãe. A boa memória de Nino é essencial para mostrar outra história da própria mãe a Rafael. Assim, ao longo do filme, ele passa a aceitar melhor a doença e o amor materno, mesmo sem lembranças conscientes de Norma em relação à sua família. Também acentua o que, muitas vezes, orientamos aos familiares: que a exposição a objetos e ambientes familiares pode trazer conforto ao paciente, mesmo sem o reconhecimento consciente.”

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