Interrupção de tratamentos: o segundo impacto da pandemia



Durante a pandemia, um levantamento da World Stroke Organization (WSO) demonstrou queda de mais de 60% nos atendimentos globais de acidente vascular cerebral (AVC). No Brasil, os números também assustaram. O Registro Epidemiológico de AVC de Joinville (JOINVASC), em artigo coordenado pelo neurologista Henrique Diegoli, apontou redução de 36% nas internações na cidade. Os hospitais estavam recebendo cada vez menos casos de AVC.


Esses dados preocuparam os neurologistas. A diminuição de atendimentos não se reflete na incidência da doença, mas no medo da população em buscar auxílio médico por conta do novo coronavírus. No caso do AVC, a demora pode ser irreversível e resultar em sequelas, incapacidade e até morte do paciente.


“A COVID-19 não levou embora as outras doenças. AVC, infarto e outras afecções continuam acontecendo. O problema é que as pessoas evitam ir ao hospital mesmo em emergências”, explica Gisele Sampaio, integrante da Diretoria da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares (SBDCV). Os profissionais da saúde buscam minimizar os prejuízos com telemedicina, mas, segundo ela, situações agudas requerem tratamento hospitalar.


“Será um segundo impacto da pandemia. Teremos mais pacientes incapacitados por não receberem tratamento adequado nos primeiros sinais do AVC”, pontua Octávio Marques Pontes Neto, chefe do Serviço de Neurologia Vascular e Emergências Neurológicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP). Segundo ele, quando indivíduos com casos mais leves, como ataque isquêmico transitório (AIT), deixam de ir ao hospital, o risco de desenvolver um quadro grave é maior. Por outro lado, uma investigação precoce da causa do AIT e medidas de prevenção adequadas podem reduzir em até 80% as chances de complicações futuras.


Telemedicina


A telemedicina se popularizou no Brasil em tempos de pandemia, mas divide opiniões quanto ao papel no combate ao AVC. Gisele sugere que médicos façam uso de alguns minutos da teleconsulta para informar o paciente sobre sinais da doença, mas frisa que, no momento de urgência, a telemedicina do médico direto para o paciente não é uma opção. “Cada minuto conta. Perder tempo em casa tentando marcar um atendimento pode agravar o problema”, afirma.


Por outro lado, a tecnologia permite a orientação a pacientes com dúvidas. É útil ainda no contato entre os próprios profissionais. “O Brasil tem dimensões continentais e, infelizmente, os serviços de saúde concentram-se nas metrópoles. A possibilidade de o médico local entrar em contato com outro especialista pode ajudar no tratamento rápido e eficaz em regiões mais afastadas”, afirma Carla Moro, presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasil AVC (ABAVC).


Ainda assim, os neurologistas concordam que, ao menor sinal, o ideal é não perder tempo e ligar direto para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).


Campanha


Para conter esse cenário trágico, muitos centros têm adotado rotas paralelas de atendimento, a fim de manter pacientes suspeitos de COVID-19 separados daqueles com outras doenças. Além disso, a partir dos estudos da WSO e da equipe de Joinville, teve início uma grande campanha de conscientização.


Carla conta que houve iniciativas planejadas com reportagens, outdoors e mídias sociais. A ABAVC, por exemplo, apostou na ação #AVCNãoFiqueEmCasa, a fim de alertar a população sobre a necessidade de procurar atendimento médico logo nos primeiros sintomas. “A ‘pandemia’ de doenças cerebrovasculares sempre esteve presente. É preciso que ganhe a mídia e a atenção de nossos gestores”, opina.


A WSO fez um chamado global, com vídeos de profissionais de saúde em diversas partes do mundo fornecendo conselhos e orientações. “Alguns médicos estavam mandando pacientes sintomáticos para casa. Foi preciso um trabalho de educação, inclusive dos próprios profissionais. No AVC, o tratamento tardio já não adianta mais. Como esses pacientes iriam viver depois?”, questiona Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC.


De acordo com essas duas especialistas, outras doenças neurológicas também sofreram diminuições no atendimento. No entanto, as iniciativas têm surtido efeito e o número de pacientes que chegam aos hospitais vem aumentando gradualmente.

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