Máscaras não ‘privam’ cérebro de oxigênio nem causam doenças neurodegenerativas




Circula por grupos de WhatsApp um vídeo em que uma mulher fala sobre supostos malefícios do uso da máscara na prevenção ao novo coronavírus. A narradora da gravação cita como fonte uma neurologista alemã chamada Margareta Griesz-Brisson. Segundo ela, a médica teria dito que a Covid-19 nunca passou de uma “gripe moderada” e que o uso de máscaras como proteção contra o vírus é inútil. Isso porque, sugere o vídeo, cria-se uma “deficiência de oxigênio no organismo e uma enxurrada de gás carbônico”. Isso pode levar à morte de células nervosas e, quando o governo “permitir” que as “pessoas voltem a respirar”, será muito tarde porque o uso da peça pode provocar doenças neurodegenerativas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir trabalho de verificação da Agência Lupa​:

Questão circulando no Whatsapp

“Boa noite. A doutora. Margareta Griesz-Brisson é uma médica neurologista alemã com PHD em farmacologia que atua na Alemanha e também na Inglaterra. Ela diz que o Covid nunca passou de uma gripe moderada e que as medidas para lidar com ele são absolutamente desastrosas. “

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora os principais sintomas da Covid-19 sejam similares aos de uma gripe, como tosse, febre e dificuldade para respirar, a doença tem consequências muito mais graves do que um resfriado comum ou mesmo uma gripe moderada. Em abril do ano passado, ainda no começo da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado que a letalidade do novo coronavírus era dez vezes maior que o H1N1, vírus da gripe A.

Diferentemente da gripe, infecção provocada pelo vírus influenza no sistema respiratório, o SARS-CoV-2 atinge também outros sistemas. Ele “transborda” e pode afetar também o sistema circulatório, causando o que se chama de endotelite, ou seja, inflamação do endotélio (camada celular presente nos vasos sanguíneos). Uma pesquisa publicada na Lancet em abril do ano passado mostrou que o novo coronavírus atinge diretamente o sistema de defesa do corpo por meio de receptores encontrados no tecido endotelial. Por isso a Covid-19 se manifesta sobretudo nos pulmões, órgãos hipervascularizados, mas pode também afetar qualquer outro órgão: coração, rins ou intestino, por exemplo.

Outra diferença é que pessoas que tiveram Covid-19 podem manifestar sintomas até seis meses depois do diagnóstico, e em um número significativo de casos, os problemas podem durar mais que isso. É a chamada síndrome pós-Covid, que engloba uma ampla gama de problemas de saúde, recorrentes ou contínuos, que vão desde distúrbios cardíacos, respiratórios e até dermatológicos.

Médica alemã citada foi desmentida na Europa

No final do ano passado, a médica Margareta Griesz-Brisson foi desmentida por diversas agências de checagem internacionais depois de divulgar um vídeo com informações enganosas sobre o uso de máscaras. Um vídeo em que ela citava informações com teor similar ao do vídeo que viralizou em grupos de WhatsApp foi removido do YouTube.

Margareta é uma neurologista alemã que atua em Londres, na Inglaterra, e segundo a clínica onde atende, tem especial interesse em neurotoxicologia, medicina ambiental, neurorregeneração e neuroplasticidade.

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

“(…) quando a gente respira o ar que a gente exala, a gente necessariamente está criando uma deficiência de oxigênio no organismo e uma enxurrada de gás carbônico. Ela [Margareta Griesz-Brisson] lembra que o cérebro é muito sensível à privação de oxigênio e as células nervosas, que são aquelas associadas à memória, às respostas emocionais e processamento espacial, não sobrevivem mais do que três minutos sem oxigênio. A cada três minutos com privação de oxigênio no cérebro, uma célula nervosa morre. Só que as células nervosas, elas não fazem as divisões celulares, ou seja, não se reproduzem mais, não se regeneram. Ou seja, quando o governo se permitir ser bonzinho e permitir que a gente volte a respirar, vai ser muito tarde. As células que morreram porque você está usando máscara achando que estava salvando vidas não serão regeneradas, o que foi perdido foi perdido (…)”

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. As máscaras usadas para prevenir contato com gotículas respiratórias e aerossóis que podem conter coronavírus não causam redução de oxigênio significativa a ponto de causar destruição de neurônios. O suposto risco de hipoxemia (diminuição dos níveis de oxigênio no sangue) e de hipercapnia (aumento dos níveis de dióxido de carbono, ou CO2, no sangue) provocada por reinalação do CO2 expirado foi testada por diversos pesquisadores. Não existe, até o momento, qualquer evidência de que a peça prive o organismo de oxigênio e, com isso, cause dano permanente em células cerebrais.

Um estudo publicado em novembro do ano passado na revista Annals of the American Thoracic Society avaliou se de fato ocorrem anormalidades ligadas à troca de gases em pessoas saudáveis e também em pessoas com disfunção pulmonar com o uso de máscaras cirúrgicas. Os pesquisadores mediram os valores de CO2 no final da expiração e a saturação de oxigênio antes e depois do uso da peça em 15 médicos sem doença pulmonar e em 15 pessoas com doenças pulmonares crônicas. Eles descobriram que a utilização do aparato não afetou de forma relevante as trocas gasosas, mesmo nos pacientes que apresentavam disfunção pulmonar grave.

Isso porque as máscaras são feitas de materiais que permitem que o ar atravesse pelos “buraquinhos” do tecido ou mesmo pelas laterais. Para uma situação de hipóxia, a pessoa deveria passar por uma completa vedação do ar como, por exemplo, respirar dentro de um saco plástico. Já a máscara não impede a troca de gases, de modo que o ar exalado atravessa essa barreira.

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

“(…) Os sintomas ocultos de aviso de que está com pouco oxigênio no cérebro são: dor de cabeça, sonolência, tontura, dificuldade de concentração e um tempo de reação mais vagaroso. Você fica com seu sistema cognitivo comprometido. Com o tempo de uso de máscaras, a gente acaba se acostumando e esses sintomas desaparecem. Mas não desaparecem os danos cerebrais que estão sendo causados. Você continua, ao longo do tempo — mesmo sem sintomas — danificando seu cérebro, porque você continua privando seu cérebro e as suas células nervosas da quantidade de oxigênio que precisam.”

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe nenhuma evidência de que o uso prolongado de máscaras comprometa o sistema cognitivo. De acordo com a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Paula Herrmann, a privação de oxigênio é obviamente deletéria. Entretanto, ela ressalta que o uso de máscaras não compromete a respiração, tampouco priva o organismo de oxigênio a ponto de prejudicar células cerebrais. Para que isso acontecesse, a máscara teria que estar totalmente “selada” na pele, e não é isso não acontece.

“Se fosse verdade, cirurgiões e outros profissionais de saúde que rotineiramente usam máscara teriam maior incidência de doenças neurodegenerativas, e não existe evidência que corrobore isso. E muito menos prova de uma relação causal. Não tem evidência de que máscara causa hipóxia. O coronavírus sim, causa. Covid-19 causa diminuição de oxigênio no sangue e pode matar os neurônios e todo tipo de célula. É a doença que causa hipóxia, e não a máscara”, explicou.

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

“Outro dado importante que ela dá é que o tamanho de um vírus é de 0.0 micrômetros. E os poros das máscaras regulares que a gente usa tem de 80 a 500 micrômetros de tamanho. Ou seja, as máscaras são inúteis, elas não seguram o vírus.”

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Ainda que o coronavírus seja menor do que os poros de uma máscara, ele não se desloca sozinho e, sim, em gotículas de água expelidas quando uma pessoa tosse, espirra e fala ou em aerossóis suspensos no ar. Gotas respiratórias têm, tipicamente, entre cinco e dez micrômetros de comprimento. Ao inalar gotas respiratórias de uma pessoa contaminada, um indivíduo pode se expor a centenas ou milhares de partículas do vírus.

Nesse sentido, as máscaras mostraram-se úteis para prevenir a Covid-19 porque bloqueiam fisicamente a inalação dessas partículas virais que podem estar em suspensão no ambiente. Além disso, ao utilizar a peça, a pessoa também impede que sejam expelidas as gotículas e, com isso, a transmissão do vírus é reduzida. Assim, quando todas as pessoas em um determinado ambiente usam máscaras, as chances de transmissão caem significativamente.

A professora Ana Paula Herrmann, da UFRGS, faz uma analogia com o uso de preservativos. “O tamanho do poro de uma camisinha é maior do que o tamanho do vírus da Aids. Mas isso não quer dizer que não proteja a pessoa de adquirir uma doença sexualmente transmissível. Da mesma forma, o coronavírus não se desloca sozinho, solto no ar. Ele se desloca em gotículas. Portanto, o tamanho real dele é muito maior” disse, por telefone. E se esse fosse o caso, ela acrescentou, “as pessoas que estão trabalhando na UTI, por exemplo, lidando com pacientes, estariam todas contaminadas porque a máscara não seria eficaz”.

Conteúdo de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

“Ela fala inclusive que para crianças e adolescentes que estão com o organismo em formação, com o cérebro em desenvolvimento é criminoso o uso de máscara. Crianças e adolescentes precisam de duas a três vezes mais oxigênios do que os adultos. A privação e até mesmo a restrição da quantidade adequada de oxigênio através do uso de máscaras vão danificar necessariamente a formação cerebral desses indivíduos, isso deveria ser proibido em todo meio médico. Ela questiona que tipo de medicina está recomendando o uso de máscaras”

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Crianças precisam de oxigênio na mesma quantidade que adultos, e não duas ou três vezes mais, como sugere o vídeo. Uma pessoa saudável, com oxigenação adequada do corpo, costuma ter uma saturação de oxigênio acima de 95% e isso é válido para indivíduos de todas as idades.

De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil e membro da Academia Brasileira de Neurologia, Letícia Brito Sampaio, nenhuma máscara é capaz de provocar intoxicação pelo excesso de CO2 inalado — o que de fato não acontece, porque as partículas do CO2 não ficam retidas na peça. “Ao usar a máscara, você segue respirando. Os gases atravessam o tecido, ninguém fica sufocado com isso. Já existem estudos feitos em pessoas que trabalham em UTI e que usam máscara o tempo todo. Em nenhum momento se tem aumento de gás carbônico ao nível que pode ser tóxico”, disse, por telefone.

A neurologista também ressalta que danos cerebrais só acontecem em caso de uma parada respiratória, por exemplo, ou quando o nível de saturação de oxigênio está muito baixo. “Mas com uso de máscara, isso não vai acontecer. É mito. É Impossível alguém ser asfixiado por uso de máscara. Pode até ter sensação de mal estar, mas é mais psicológico, pela falta de costume. Além disso, se oferecesse qualquer risco às crianças especificamente, entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria, por exemplo, não recomendaria o uso”, conclui a médica.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato Agência Lupa pelo número +55 21 99193-3751.

Fonte – Agência Lupa - https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2021/06/17/verificamos-mascaras-cerebro-oxigenio-doencas-neurodegenerativas/

Foto: Marcello Casal Jr - Agência Brasil


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