Morre o professor, entomologista, médico, ambientalista e escritor Ângelo Machado, aos 85 anos

Ele escreveu cerca de 50 livros, contribuindo para a divulgação da ciência inclusive para crianças, e foi homenageado com seu nome em 56 espécies de animais



A Academia Brasileira de Neurologia lamenta profundamente informar o falecimento do Prof. Dr. Ângelo Barbosa Monteiro Machado (Belo Horizonte, 25.5.34 a 6.4.20). Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1958, nunca exerceu a profissão médica.


Apesar disto e paradoxalmente, como veremos, ele exerceu profunda influência sobre a Medicina, particularmente nas áreas de Neurocirurgia e Neurologia. Imediatamente após a graduação ele se tornou docente de Anatomia na UFMG, obtendo o título de Doutor em 1963. De 1965 a 1967, ele fez pós-doutoramento na Northwestern University em Chicago.


Ao retornar ao Brasil, junto com sua esposa e principal colaboradora científica, Professora Conceição Ribeiro da Silva Machado (1936-2007), criou os Laboratórios de Microscopia Eletrônica e de Neurobiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Após aposentar-se como Professor Titular do Departamento de Morfologia em 1987, ele reingressou no próprio ICB-UFMG, mas no Laboratório de Sistemática de Insetos do Departamento de Zoologia.


Após aposentadoria em 2004, ele foi eleito Professor Emérito do ICB-UFMG no ano seguinte. As mais importantes contribuições na área de Neurobiologia foram elucidar o processo de formação a partir do retículo endoplasmático liso de vesículas sinápticas contendo noradrenalina e vários aspectos do envolvimento do sistema nervoso autonômico em modelos animais de doença de Chagas.


Na área de entomologia, ele se dedicou ao estudo de libélulas, tendo descrito o espantoso número de 98 espécies e 11 gêneros deste inseto. Aliás, o Prof. Ângelo gostava tanto de libélulas, que a fila de azulejos que demarca a linha de água da piscina da sua casa contém, a pedidos dele, desenhos destes insetos. A terceira atividade intelectual a que ele se dedicou foi de ambientalista.


Em uma época em que este assunto merecia, quando muito, rodapé de artigos em diferentes meios, ele se engajou vigorosamente na defesa do meio ambiente. E sua outra área de interesse era literatura, havendo escritos dezenas de livros e peças. A maioria destes eram dedicados ao público infanto-juvenil. Em 1993 ele ganhou o Prêmio Jabuti pelo livro “O velho da montanha, uma aventura amazônica”.


Seu legado marcante para a Neurologia foi resultado quase de um acidente. Já assistente do Prof. João Afonso Liberato Didio, então catedrático de Anatomia da UFMG, ele nas suas próprias palavras, achava que “não havia futuro em dissecar”. Com isto, deslocou-se para Neuroanatomia. Com seu notável talento didático, tornou acessível o que até então era uma disciplina fundamentalmente incompreensível para os estudantes de Medicina, obrigados a decorar espessos tratados estrangeiros. Os alunos copiavam as aulas, datilografavam-nas e criaram apostila que circulava semestre após semestre.


O próprio Professor Ângelo, então, organizou o texto e surgiu a primeira edição do livro Neuroanatomia Funcional. Abusa-se do uso do adjetivo seminal, mas neste caso pode-se com razão associar este livro a função procriadora: são raros os neurologistas brasileiros que não se descobriram apaixonados pelo sistema nervoso e enveredaram na neurologia graças a este maravilhoso livro.


Lamentamos por aqueles que não tiveram o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. Ângelo Machado. Vir de uma família aristocrática e cheia de gigantes na Medicina (Lucas Machado), política (Cristiano Machado) e literatura (Maria Clara Machado e Abílio Machado) pode facilmente resultar em bloqueio à expressão de talentos. Isto jamais ocorreu com ele que, afora todos os atributos intelectuais, era um homem excêntrico e extremamente divertido, afetuosamente chamado de “Angelim” por pares e alunos.


Além dos feitos antes descritos, há muitos outros científicos e não-científicos. Possuía um notável talento para idiomas, foi ator amador durante o curso médico e um noctívago na vida boêmia belo-horizontina. Sua aposentadoria nesta última atividade (lamentada, aliás, por seus colegas da boêmia!) foi causado pelo fato mais determinante da sua vida: paixão e casamento com a Profa. Conceição, resultando no nascimento de Lúcia (neuropediatra), Flávia (intensivista), Paulo (biólogo) e Eduardo (funcionário do Banco Central).

Por Francisco Cardoso - Professor Titular Departamento de Clínica Médica, Neurologia Faculdade de Medicina - UFMG

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