Neurologia do Brasil é notícia na Academia Europeia

Prof. Carlos Rieder, presidente da ABN, é entrevistado pelo Prof. D. Muresanu e o Prof. T. von Oertzen, co-presidentes do Comitê de Comunicação da Academia Europeia de Neurologia (AEN)



Ilustre a estrutura e os objetivos da ABN para os leitores do portal da AEN.


O Brasil é um país heterogêneo com dimensões continentais. É o quinto país mais populoso do planeta e representa um terço da população da América Latina. O país tem idiossincrasias notáveis. Por um lado, é um típico país em desenvolvimento; já por outro, tem tido uma melhoria progressiva e substancial em vários parâmetros sociais e econômicos nas últimas décadas, incluindo um aumento na expectativa de vida que é particularmente marcante em algumas regiões, como no sul e sudeste, onde geralmente apresenta uma melhor qualidade de vida em comparação com as regiões Norte e Nordeste. As diferenças culturais, socioeconômicas e demográficas entre as regiões brasileiras estão associadas a uma ampla variação de organizações de serviços e atendimento neurológico. As necessidades desses profissionais brasileiros são diversas e heterogêneas. Portanto, diferentes estratégias são necessárias na educação e no treinamento para o cuidado neurológico.


A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) trabalha pelos interesses em comum dos neurologistas do Brasil desde 1962. A área da neurologia no Brasil começou a surgir no início do século XIX. A medicina europeia exerceu forte influência na medicina brasileira e nos principais pioneiros da neurologia brasileira. Hoje, a ABN tem quase 4.000 membros.


A distribuição de neurologistas é muito heterogênea no país. Os territórios do sul, sudeste e centro do Brasil apresentam maior densidade de profissionais. Isso pode ser explicado pela predomínio de grandes cidades nessas regiões, bem como por uma maior domínio de tecnologia avançada, universidades e centros de treinamento. O ABN tem trabalhado para estimular jovens neurologistas a desenvolver neurologia em todas as regiões do Brasil. No entanto, têm sido difícil de superar problemas como a baixa infraestrutura dos serviços de saúde.


Além de desenvolver centros de excelência e treinar neurologistas, é fundamental mostrar aos médicos a importância da atenção primária na prestação de serviços neurológicos. A ABN também tem trabalhado para fornecer educação neurológica para médicos de clínica geral.


Muitos neurologistas da ABN de diversas partes do Brasil têm dificuldade em comparecer às reuniões e obter o benefício dessas atividades complementares. A ABN tem organizado diversas campanhas para disseminar informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento de diferentes doenças neurológicas. O Congresso da Academia Brasileira de Neurologia ocorre a cada dois anos, com a participação de cerca de 4.000 neurologistas em busca de uma formação contínua. Este tem sido o resultado de um trabalho árduo da liderança do ABN e de membros representantes neurológicos.



Como a ABN promove o desenvolvimento da neurologia clínica e das ciências neurológicas em todo o Brasil?


A ABN está organizada em departamentos científicos como outras associações internacionais de neurologia. As colaborações entre instituições de treinamento têm sido um modelo de sucesso para apoiar a educação médica especializada e aumentar a capacidade clínica e de pesquisa. No que se refere às subespecialidades da neurologia, muitas delas, como epilepsia, distúrbios do movimento, demências, doenças cérebro vasculares e infecciosas, apresentam alta produção científica no Brasil. Desde 1970, a ABN edita e publica os Arquivos de Neuro-Psiquiatria, uma revista de acesso aberto publica seu conteúdo em inglês, com o objetivo de trazer artigos relevantes revisados por pares para profissionais e pesquisadores nas áreas de neurologia clínica e neurociência.


O Brasil vem construindo uma história de excelência em neurologia, mas nos últimos anos, restrições políticas e econômicas levaram à emigração de muitos especialistas e cientistas brilhantes para instituições acadêmicas de países desenvolvidos, especialmente na América do Norte.



A AEN espera trabalhar com você e a ABN. Como você vê o desenvolvimento dessa cooperação, particularmente no que diz respeito aos desafios globais atuais, como a pandemia COVID-19?


Nos últimos anos, a “globalização” tem sido positiva, permitindo facilmente projetos cooperativos entre associações e países. A colaboração com a AEN certamente contribuirá ainda mais para o desenvolvimento da neurologia brasileira.


Com relação à pandemia de COVID-19, o Brasil continua tendo um número extremamente alto de casos diários de COVID-19 em todo o país. O Brasil perdeu mais de 430.000 vidas e tem uma das maiores taxas de mortalidade per capita do mundo. Cerca de 33 milhões de pessoas (15% da população) receberam pelo menos uma dose de vacina no Brasil; uma proporção que ainda é muito pequena. A colaboração entre sociedades ao redor do mundo para desenvolver bancos de dados neuro epidemiológicos para relatar todos os casos de distúrbios neurológicos de início recente, agudo, retardado e de longa latência ajudará no desenvolvimento de estratégias para lidar com complicações neurológicas associadas à infecção por SARS-CoV-2.



*** Veja a publicação original da AEN - https://www.eanpages.org/2021/06/04/prof-carlos-rieder-president-of-the-brazilian-academy-of-neurology-is-interviewed-by-prof-d-muresanu-and-prof-t-von-oertzen-co-chairs-of-the-ean-communication-committee/


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