Neurologia e COVID-19



Constante aprendizado e novidades diárias são expressões recorrentes quando o assunto é COVID-19 entre os médicos de todo o mundo. A doença, por ser nova, comporta-se como uma espécie de caixinha de surpresas, desafiando especialistas em Medicina e pacientes ansiosos por conhecer o máximo possível sobre as formas de manifestação e, o mais relevante, como vencê-la.


Nesse contexto, a relação entre COVID-19 e ocorrências neurológicas provoca inúmeras dúvidas. Desde o surgimento da doença estão sendo feitas seguidas descobertas, mas o caminho ainda é longo e bem desconhecido.


Atualmente, sabe-se que 30% a 40% de todos os pacientes infectados por COVID-19 apresentarão manifestações neurológicas. Esse dado foi apresentado a partir de uma análise retrospectiva de prontuários realizada com 214 pacientes internados na região de Wuhan, na China, local do surgimento da doença.


O vírus é capaz de atingir o sistema nervoso central, o sistema nervoso periférico e o sistema musculoesquelético. No primeiro caso, pode provocar dor de cabeça, tontura, rebaixamento do nível de consciência, alteração do equilíbrio e convulsões. Em poucos episódios foi relatada a ocorrência de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico.


“Já há consenso de que a infecção pelo coronavírus pode aumentar as chances de AVC isquêmico por, basicamente, hipercoagulabilidade e miodicardite viral com deflagração de situação cardíaca emboligênica”, comenta Tarso Adoni, secretário geral da ABN e secretário do DC de Neuroimunologia.


Ao alcançar o sistema nervoso periférico, o paciente pode apresentar hipogeusia e hiposmia, alteração da percepção do paladar e do olfato, respectivamente. Segundo Marcus Tulius Teixeira da Silva, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e vice-coordenador do DC de Neuroinfecção da ABN, essa é uma condição frequente entre os pacientes, encontrada em 33,9%. “Acredita-se que isso ocorra por uma invasão viral via nervo olfatório”, complementa. “Já entre os sintomas musculares esqueléticos encontram-se mialgia, câimbras e fadiga.”


As razões dessas manifestações neurológicas em quadros de infecção pelo novo coronavírus ainda não são absolutamente compreendidas. Contudo, é certo que o vírus possui tropismo especial pela via respiratória, sendo favorecida a chegada ao sistema nervoso: “A via de acesso pode ser hematogênica, por linfócito periférico infectado ou, por fim, por meio dos feixes olfatórios”, explica Adoni.

Riscos


“As formas neurológicas graves, como AVCs e alterações de consciência, ocorreram em quadros infecciosos mais graves em comparação aos menos impactantes”, pontua Cristiane Nascimento Soares Pereira, coordenadora do DC de Neuroinfecção da ABN e neuroinfectologista do Hospital Federal dos Servidores do Estado (Rio de janeiro, RJ). Segundo ela, resultados de autópsias de pacientes com COVID-19 revelaram hiperemia e edema cerebral, com degeneração neural em alguns casos.


Ainda é cedo para afirmar que, com a invasão do vírus no sistema nervoso, há chances de sequelas a longo prazo. Tudo dependerá do grau de acometimento e da capacidade de reparo local. Assim, haverá pacientes com recuperação total até aqueles com graves sequelas.


Quando analisados os casos descritos de outros coronavírus, teoricamente, essa possibilidade é palpável: “Se pensarmos que os pacientes que desenvolvem uma encefalite viral podem ficar com sequelas tardias, tais como crise convulsiva ou déficit cognitivo, então podemos imaginar que o mesmo possa de dar em possíveis alterações neurológicas associadas ao vírus”, afirma Silva.


Cristiane cita o estudo de Helms et al. (doi: 10.1056/NEJMc2008597), segundo o qual 15 em cada 45 pacientes (33%) ainda apresentavam desatenção e desorientação na alta hospitalar.


Futuro


São distintos os grupos de neurologistas que iniciaram projetos de pesquisa e vêm se dedicando a entender melhor o comportamento do coronavírus no sistema nervoso. Há estudos tanto clínicos como laboratoriais, como é o caso das pesquisas com a coleta de líquor. “A situação é muito recente e faz com que haja uma busca intensa por relatos e séries de episódios de pacientes com complicações neurológicas. Devemos, em regra, ter cuidado com estudos publicados sem a tradicional revisão por pares em virtude da necessidade de respostas rápidas”, alerta Adoni.


Nesse cenário, o desafio é compreender o espectro das manifestações neurológicas, os mecanismos e o melhor tratamento para cada uma delas. A situação atual de combate ao COVID-19 requer um alerta do especialista: “Orientar da melhor maneira seus pacientes e estar atento ao surgimento de novas informações científicas que possam respaldar uma melhor condução dos casos atendidos”, enfatiza.

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