Parkinson: perguntas e respostas sobre a segunda doença neurodegenerativa mais comum em idosos

Dia mundial de conscientização será neste domingo (11)



Neurotransmissor conhecido por sua associação com a sensação de prazer, a dopamina também exerce papel fundamental no controle motor humano. É por esse motivo que a falha na produção dessa substância está relacionada com a doença de Parkinson — que, entre outros sintomas, afeta o movimento dos pacientes.


Funciona mais ou menos assim: dentro do nosso encéfalo, existe uma área chamada de substância negra, que abriga os neurônios dopaminérgicos, ou seja, que produzem a dopamina. Quando essas células morrem, a produção diminui, prejudicando a comunicação neuronal e provocando lentidão nos movimentos, enrijecimento muscular e, em alguns casos, tremores, principais indícios motores da enfermidade.


Crônico, degenerativo e sem cura, o Parkinson é, atualmente, a segunda doença neurodegenerativa mais comum em pessoas acima de 60 anos, ficando atrás apenas do Alzheimer. No Brasil, estima-se que, na população com mais de 60 anos, o percentual de pacientes com a enfermidade chegue a 3,3%. Estatísticas da Parkinson Foundation, organização norte-americana que tem como missão melhorar a vida de pacientes com a doença, apontam para mais de 10 milhões de pessoas no mundo com a enfermidade. Dada sua prevalência, em 11 de abril é celebrado o Dia Mundial do Parkinson, que tem como objetivo lançar luz para o problema e conscientizar a população sobre o assunto.


O que é?


Descrita pela primeira vez com clareza em 1817 por James Parkinson, a doença é caracterizada pela morte progressiva de células do encéfalo. Embora acometa preferencialmente uma região específica que comanda os movimentos humanos, não fica restrita apenas a essa área.


— Há uma região, chamada de substância negra, que tem células produtoras de dopamina, neurotransmissor importante na regulação dos movimentos. Quando o paciente apresenta perda das células, quando elas se degeneram, ele começa a ter movimentos lentos — explica Artur Schumacher Schuh, professor do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe do Serviço de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.


A doença de Parkinson leva os pacientes a apresentarem sintomas motores e também não motores (leia mais logo abaixo).


Por que ocorre?


As causas do Parkinson ainda não são muito claras, contudo, sabe-se que a doença é provocada pela interação de fatores genéticos e ambientais. Ou seja: uma pessoa pode ter genes que a predispõe à doença, no entanto, se ela não for exposta a determinadas condições ambientais, não desenvolverá Parkinson, esclarece Schuh.


A grande incógnita, porém, é quais são esses fatores.


— Estamos avançando. Do ponto de vista genético, temos quase 90 marcadores associados a maior e menor risco em populações europeias. Estamos tentando replicar esses estudos para populações miscigenadas — destaca o docente da UFRGS.


Apesar desse mapeamento de características genéticas, os quadros provocados por esse fator somam apenas 10% dos casos, afirma Sheila Trentin, médica do Serviço de Neurologia do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (HSL-PUCRS) e coordenadora do Ambulatório de Distúrbios do Movimento. Dos fatores de risco ambientais, a médica elenca o traumatismo cranioencefálico, exposição a agrotóxicos e consumo de água de poço.


Quais são os sintomas motores?


Embora os tremores sejam bastante associados ao quadro de Parkinson pela população, não são exatamente eles que vão determinar o diagnóstico – cerca de 30% dos pacientes não apresentam. Um dos principais indícios da doença é a bradicinesia, ou seja, a lentidão dos movimentos. Pelos critérios de diagnóstico, deve estar acompanhada por mais um de dois sinais: rigidez muscular ou tremores.


— Muitas vezes, o sintoma principal é o enrijecimento. As pessoas olham e percebem um caminhar diferente, com passos mais curtos, menos balanço dos braços, postura mais para a frente e perda de agilidade — ilustra Sheila, do HSL-PUCRS.


Outros indícios são as quedas decorrentes da perda de reflexos, a face em máscara (perda da expressão e redução do piscar de olhos), a diminuição do volume da voz e a micrografia, quando a letra fica pequena.


— Quando se usava cheque, um dos primeiros sintomas eram percebidos quando eles voltavam em razão da letra pequena — conta Sheila.


E os sintomas não motores?


Os pré-sintomas são inespecíficos e costumam surgir muitos anos antes do aparecimento dos problemas motores. São eles: depressão, perda do olfato, constipação e distúrbios do sono.


— Eles podem aparecer até 20 anos antes, no entanto, não se pode dizer que é Parkinson. Só conseguimos fechar o diagnóstico quando há sintomas motores — justifica a coordenadora do Ambulatório de Distúrbios do Movimento do HSL-PUCRS, Sheila Trentin.


No curso da doença, além da questão motora, podem surgir incontinência urinária, disfunção erétil, quedas de pressão quando a pessoa fica em pé, dores, dificuldade para engolir, alterações na pele e alterações cognitivas.


Como diagnosticar?


Como não existe nenhum exame específico para detectar a doença, o diagnóstico usa critérios clínicos. Inicialmente, o paciente precisa apresentar parkinsonismo ou síndrome parkinsoniana, que é lentidão dos movimentos, ou rigidez muscular ou tremor de repouso.


Ao ter algum desses indicativos, a pessoa é submetida a exames que vão excluir outros quadros que podem causar tais sinais — alguns medicamentos e até mesmo traumas ou infecções virais podem provocar esses sintomas. Por fim, são avaliados outros critérios, entre os quais a resposta aos fármacos.


— Ele é um dos melhores critérios do ponto de vista clínico, é o que aumenta a minha convicção de que se trata de Parkinson — garante Artur Schumacher Schuh.


Tem como prevenir?


Sabe-se que um dos fatores de risco para a doença é o envelhecimento. No entanto, é preciso que a pessoa tenha predisposição genética ao Parkinson associada aos fatores ambientais para desenvolvê-lo. Ainda assim, há algumas substâncias que podem reduzir o risco, como é o caso das bebidas cafeinadas, como o próprio café e o chimarrão.


— Publicamos um estudo que mostrou que o chimarrão pode ser protetor para o Parkinson. Imaginamos que isso ocorra em razão do conteúdo de cafeína, mas não descartamos a hipótese de que seja por conta de outros antioxidantes presentes na erva-mate — afirma Schuh.


A neurologista Sheila Trentin também sugere trabalhar o cérebro para garantir a ele uma espécie de “reserva” para o caso de adoecimento:


— Se a pessoa tem a cabeça desenvolvida pela leitura, pela atividade cognitiva, e uma boa parte física, ao ter uma doença neurológica essa “reserva” consegue “segurar” mais a enfermidade na comparação com quem não tem treinamento cognitivo e é sedentário.


Por isso, ela recomenda manter alimentação saudável, prática regular de exercícios físicos e ocupação da cabeça, preferencialmente com atividades novas que tragam alguma dificuldade. Se a pessoa faz palavra cruzada a vida toda, talvez investir em outra atividade, como a leitura, seja interessante, indica.


Existe cura?


A doença de Parkinson não tem cura, apenas tratamento para redução dos sintomas a fim de oferecer qualidade de vida aos pacientes. Conforme Carlos Rieder, médico do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento (HMV) e presidente da Academia Brasileira de Neurologia, os medicamentos que ajudam a repor a dopamina seguem os mesmos desde a década de 1960. Essas drogas, no entanto, têm efeito limitado de tempo.


— Nos primeiros anos de uso, o paciente fica praticamente normal. É um período de lua de mel. Mas ele não dura para sempre e, com o avançar da doença, de três a cinco anos, pode haver piora nos sintomas motores e complicações advindas desses fármacos — aponta Schuh.


Outra opção é a cirurgia, na qual o paciente recebe uma espécie de marca-passo no cérebro para que ele envie impulsos elétricos, controlando os tremores e os movimentos involuntários. O procedimento, porém, é muito específico para alguns pacientes e precisa ser feito dentro de uma janela de tempo de doença: nem muito cedo nem com o quadro avançado. Vale destacar que a cirurgia também não é sinônimo de cura.


Para além dessas opções, a prática de exercícios físicos, preferencialmente aeróbicos e com impacto, e um trabalho multidisciplinar, com fonoaudiólogo, fisioterapeuta e psicólogo também é recomendado.


O que se espera para os próximos anos, estima Rieder, são medicamentos para tratar a doença, e não somente os sintomas.


— Foi observado que há uma proteína, chamada sinucleína, que se aglomera nos neurônios. Acredita-se que esse acúmulo os leve à morte. As pesquisas em andamento avaliam medicamentos que consigam “limpar” e evitar o acúmulo dessa proteína — explica o médico do HMV.


Rieder lembra que o canabidiol, alvo de muitas perguntas em consultório, não mostrou benefícios no tratamento da doença de Parkinson.

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