Perder a memória é uma tragédia

“As moléstias demenciais têm atraído o olhar de não só de cientistas, também de escritores e cineastas. Três filmes recentes, de enredos construídos a partir de livros, atraíram a atenção da crítica e do público.”



A memória é para nós, humanos, parte indissociável de nossa identidade. Por isso, ao aportar em certa faixa etária, muitos, como eu, podem se sentir ameaçados pelo terror de perdê-la. São as pessoas que compartilham a ideia de que à medida que caminham para o que resta de existência, mais dependem da memória para manter a autonomia. Isso significa ter condição de cuidar de si; situar-se no tempo e no espaço; reconhecer todos os que fazem parte do seu entorno; buscar soluções para problemas que vão de triviais a complexos; manter o ânimo a fim de continuar tocando a vida, esse mistério que se nos desafia, também nos encanta.


Tive na família uma tia que na juventude havia sido atleta e se formara professora. Casara-se jovem e tivera muitos filhos. Dinâmica, culta, boa leitora de livros e mundos, aos sessenta anos começou a apresentar déficits de memória que de início meus primos achavam apenas engraçados. Por exemplo, um sábado, depois de ter ido ao cabeleireiro arrumar-se para um casamento, ela chegou em casa e lavou a cabeça. Como era destituída de vaidade, concluiu-se que penteado era o que menos lhe importava. Todos riram; ela também riu. Mas os esquecimentos a partir dali foram se tornando cada vez mais frequentes e um dia ela pegou um pacote de frango congelado e colocou num lugar do qual não se lembrava. Até que uma semana depois alguém abriu a porta de velho forno desativado e a carne estava lá, deteriorada. Nos últimos anos minha boa tia não se reconhecia no espelho, perguntava quem era a mulher nele refletida.


Àquela altura, meados dos 80, já se sabia o nome da doença que a deixara irreconhecível. Muitas décadas antes, um psiquiatra alemão chamado Alois Alzheimer havia publicado o caso de uma paciente saudável que aos 51 anos começou a apresentar perda progressiva de memória, alterações de comportamento, desorientação e dificuldade para se comunicar e entender o que os outros queriam dizer. Após a morte dela, o médico realizou uma autópsia e descobriu lesões cerebrais decorrentes de uma desordem nas proteínas responsáveis pelas conexões dos neurônios. Desde então, a ciência avançou muito no estudo do cérebro, mas ainda não encontrou medicamentos capazes de reverter memórias devastadas.


Por se tratar de mal de alto impacto, o Alzheimer, uma das formas de demência, tem sido alvo de pesquisas no mundo inteiro. Algumas buscam identificar os primeiros sintomas partindo da premissa de que certos medicamentos em estudo poderão beneficiar diagnósticos precoces. Dentro desse espírito, especialistas da IBM treinaram inteligência artificial para captar mudanças na linguagem escrita de homens e mulheres de 70 anos que haviam aderido a um programa de iniciativa federal em parceria com universidade norte-americana.


Este programa exigia testes físicos e cognitivos regulares. Como parte deles, constava a descrição de uma mesma cena ao longo de sete anos e meio. Mostrava um menino em pé sobre banquinho pouco seguro, procurando um pote de biscoitos em prateleira alta, enquanto uma mulher, de costas para ele, estava desatenta, preocupada com uma pia que transbordava. Estudando o padrão de escrita de todos os participantes ao longo dos anos, cientistas concluíram que metade dos idosos o tinham mantido; mas a outra se tornara confusa em relação ao léxico; equivocada quanto à ortografia; negligente com as maiúsculas; adepta de uma comunicação telegráfica onde frases simples careciam muitas vezes de sujeito e até de verbos; também ficava evidente a ausência de termos abstratos.


Esse segundo grupo foi diagnosticado com Alzheimer. O programa, considerado pioneiro, previu com 75% de precisão quem teria a doença. Se confirmada nos outros estudos em andamento, a descoberta se juntará a outros testes para identificar a doença e sinalizar com antecedência sua evolução.


As moléstias demenciais têm atraído o olhar de não só de cientistas, também de escritores e cineastas. Três filmes recentes, de enredos construídos a partir de livros, atraíram a atenção de críticos e público: “Para sempre Alice”, de Richard Glatzer; “Amor”, de Michael Haneke; “Meu Pai”, de Florian Zeller - este premiado com o Oscar 2021. Quem assistiu a eles, terá visto nas admiráveis interpretações de Juliane Moore, Emanuelle Riva e Anthony Hopkins, respectivamente, aqueles olhares perdidos de quem está apenas fisicamente no mundo, cercado pelos que o amam e sofrem muito com a impossibilidade de fazer algo em seu favor.


Milhares de pessoas são acometidas pela demência a cada ano. Desse total, o Alzheimer representa de 60 a 70 % dos casos. A estimativa da OMS é de que até 2050, mais de 100 milhões de pessoas serão diagnosticadas no mundo com essas doenças que surrupiam a dignidade do ser humano, apagando aos poucos todas as páginas do diário que cada humano escreve sem cessar do início ao fim de sua existência.


A ciência um dia encontrará a chave que permitirá acessar todas as engrenagens dessa extraordinária máquina chamada cérebro, da qual se conhece tão pouco, embora ela já tenha possibilitado levar homens à Lua e foguetes a outras galáxias. Abrir a porta da memória é no momento uma façanha hercúlea na qual se empenham cientistas que buscam explicações para as demências.


Enquanto eles tentam, continuemos a ler, pois este é um excelente meio de manter viva a extraordinária rede de neurônios responsável pelo armazenamento de todos os nossos registros auditivos, visuais, olfativos, gustativos, táteis, cognitivos, emocionais. Se você chegou ao fim desse texto, tenha certeza de que terá acionado centenas de milhões deles...


Fonte: GCN.net.br

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