Pesquisa alerta sobre importância do neurologista no combate à COVID-19

O estudo foi realizado por neurologistas do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas de São Paulo


Às cegas. Foi assim que a relação com o novo coronavírus começou. Desde que a COVID-19 assolou o mundo e chegou ao Brasil, profissionais de saúde lutam diariamente para conhecer e combater essa doença imprevisível. Após alguns meses desse relacionamento conflituoso, grandes passos foram dados e a persistência da ciência brasileira abre caminho para um futuro melhor.


Foi em meio a esse contexto, que neurologistas do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) reuniram forças e realizaram um estudo para relatar os principais motivos de solicitação de consultas neurológicas por clínicos e intensivistas em um hospital dedicado a atender pacientes com COVID-19.


Inicialmente, a pesquisa intitulada "Consultas neurológicas e diagnósticos em grande hospital universitário dedicado à COVID-19" tinha o objetivo de entender quais eram as complicações neurológicas que os pacientes diagnosticados com a doença apresentavam. Entretanto, ao longo do processo, os pesquisadores levantaram outras questões.


"O objetivo inicial era saber a prevalência de manifestações neurológicas em pacientes da COVID-19. Com o desenvolvimento do trabalho, começou a surgir o interesse em entender a motivação dos clínicos ao solicitar um neurologista. Assim, demonstrar a importância desse profissional dentro de uma doença que, a princípio, foi descrita como respiratória", explica Adalberto Studart-Neto, um dos autores do estudo.


Outro ponto que chamou atenção e tornou-se também um estímulo para o desenvolvimento do trabalho foi compreender se o vírus invade ou não o Sistema Nervoso Central. Segundo Ricardo Nitrini, chefe do Departamento, professor titular de Neurologia da FMUSP e supervisor do trabalho, essa preocupação surgiu observando casos que mostravam possibilidade da alteração neurológica estar diretamente ligada à presença do coronavírus.


"Essa também era uma questão que precisávamos contribuir. Tínhamos circunstância favorável para isso, com acesso a muitos casos e neurologistas atendendo. Então, nós tínhamos, de fato, condições de compreender melhor essa doença quando comparado a outros lugares do mundo.”

Hospital das Clínicas

O HC foi um dos protagonistas do estudo. Com a chegada da pandemia, o Instituto Central, que normalmente atende todas as especialidades, precisou ser completamente esvaziado em uma semana para tornar-se um local de atendimento exclusivo da COVID-19.


Com essa conduta, o HC é considerado centro de referência no Estado de São Paulo, principalmente para casos mais graves da doença. São 900 leitos, incluindo 300 para Unidades de Terapia Intensiva (UTI).


Para o neurologista e pesquisador Bruno Fukelmann Guedes, essa realidade foi uma aliada ao desenvolvimento da pesquisa "Estávamos em um ambiente com leitos dedicados inteiramente à COVID-19 e, certamente, isso gera um universo de complicações neurológicas muito grande. Estamos falando de muitos pacientes críticos, que foram assistidos por intensivistas com muita experiência e, por algum motivo, ainda assim o clínico entendia que a nossa assistência agregaria dados importantes".


O estudo foi realizado entre 23 de março e 23 de maio de 2020 através da análise de interconsultas de neurologia hospitalar. Para isso, um grupo de neurologistas foi designado especificamente para fazer esses atendimentos aos pacientes que eram admitidos com suspeita ou confirmação da doença. Eram feitos exames neurológicos, avaliação dos dados disponíveis para diagnosticar a patologia neurológica e, quando necessário, havia solicitação de exames adicionais.


"A medida que a demanda por avaliações neurológicas foi aumentando, começamos a registrar os pacientes e categorizá-los, para entender melhor a necessidade dos clínicos e as razões pelas quais solicitavam a avaliação de um neurologista", conta Raphael de Luca e Tuma, membro da equipe de neurologistas atuante na linha de frente.


Todo o Departamento de Neurologia do hospital esteve envolvido, em algum grau, com a pesquisa. Foram 15 neurologistas trabalhando na assistência direta aos pacientes, sendo sete assistentes e oito residentes, somados aos 20 profissionais que participaram da redação do artigo.


De acordo com Bruno, as complicações neurológicas levantadas passaram por muitas subespecialidades da neurologia. Sendo assim, neurologistas com experiência nesses casos em outros contextos também contribuíram. Todo o processo foi cuidadoso e o grupo inteiro teve participação ativa.


"Apesar enfatizarmos bastante os neurologistas na linha de frente, muitos outros colegas estavam envolvidos na revisão dos dados clínicos. Durante os estudos, realizamos reuniões de consenso online semanalmente e para discutir o desenho do artigo e debater casos específicos, em especial aqueles que apresentavam alguma dúvida diagnóstica", completa.

Resultados

Foram diversas as conclusões da pesquisa. Em um âmbito científico, o levantamento mostrou que de 1.208 consultas, 89 foram solicitadas avaliações neurológicas. Entre os principais diagnósticos estavam encefalopatia, Acidente Vascular Cerebral (AVC), crises epilépticas, entre outros.


"Uma das ideias originais era exatamente mostrar a necessidade do neurologista dentro do hospital, e expor a importância crescente. Com o passar do tempo, o número de consultas neurológicas solicitadas foi aumentando, os médicos começaram a observar que era preciso e bom contar com essas consultas para auxiliar no tratamento", pontua Nitrini.


Além de comprovar a relevância da presença dos neurologistas no corpo médico de atendimento hospitalar à COVID-19, o trabalho revelou outras conclusões. Para Tuma, o artigo ajudou a compreender a demanda de recursos necessários e, consequentemente, exigir uma alocação mais bem distribuída dos mesmos.


"Eu espero que a gente tenha conseguido, no mínimo, armar outras equipes de neurologia com algum respaldo bem documentado sobre a importância de uma equipe neurológica dedicada e desses equipamentos, que vão desde o eletroencefalograma e a tomografia até a ressonância magnética”.


Com a conclusão do estudo, Tuma também pontua: “Agora, com estes primeiros dados em mãos, podemos explorar as manifestações neurológicas específicas, como a encefalopatia, com estudos mais focados. Eles já estão em andamento sob a supervisão de grupos dedicados dentro de nosso departamento".

A implementação da telemedicina é uma das heranças da COVID-19, segundo Adalberto, e também foi uma das reflexões propostas pelo trabalho. Em um cenário que exalta a importância da avaliação de um neurologista, os centros de menor complexidade que carecem da presença desse profissional, devem usufruir dessa ferramenta para oferecer maior suporte aos seus pacientes.


"Os próprios hospitais com maiores recursos podem dispor de neurologistas por telemedicina. De fato, acredito que a lição maior do nosso estudo seria a importância do neurologista e, com a telemedicina, isso tende a divulgar um pouco mais o nosso papel, mesmo em lugares onde não estamos presentes fisicamente", finaliza.

AUTORES

Adalberto STUDART-NETO

Bruno Fukelmann GUEDES

Raphael de Luca e TUMA

Antonio Edvan CAMELO FILHO

Gabriel Taricani KUBOTA

Bruno Diógenes IEPSEN

Gabriela Pantaleão MOREIRA

Júlia Chartouni RODRIGUES

Maíra Medeiros Honorato FERRARI

Rafael Bernhart CARRA

Raphael Ribeiro SPERA

Mariana Hiromi Manoel OKU

Sara TERRIM

Cesar Castello Branco LOPES

Carlos Eduardo Borges PASSOS NETO

Matheus Dalben FIORENTINO

Julia Carvalhinho Carlos DE SOUZA

José Pedro Soares BAIMA

Tomás Fraga Ferreira DA SILVA

Cristiane Araujo Martins MORENO

Andre Macedo Serafim SILVA

Carlos Otto HEISE

Rodrigo Holanda MENDONÇA

Ida FORTINI

Jerusa SMID

Tarso ADONI

Marcia Rubia Rodrigues GONÇALVES

Samira Luisa Apóstolos PEREIRA

Lecio Figueira PINTO

Helio Rodrigues GOMES

Edmar ZANOTELI

Sonia Maria Dozzi BRUCKI

Adriana Bastos CONFORTO

Luiz Henrique Martins CASTRO

Ricardo NITRINI

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