REDONE.br: reconhecimento internacional



Quando ainda vivíamos os primeiros meses de pandemia, no início de 2020, os médicos, de forma geral, eram só interrogações diante do desconhecido inimigo da saúde coletiva. O mesmo fato ocorria, naturalmente, com os neurologistas especialistas em doenças desmielinizantes, como esclerose múltipla (EM) e neuromielite óptica (NMO), os quais colecionavam dúvidas quanto ao adequado manejo clínico.


Os imunomoduladores e imunossupressores poderiam estimular a suscetibilidade ao Sars-CoV-2? O Covid-19 seria mais grave em pacientes em tratamento de EM ou de NMO, resultando em desfechos negativos? Seria ainda capaz de piorar o quadro neurológico preexistente?


Em busca de respostas cientificamente consistentes, o REDONE.br (Registro Brasileiro de Doenças Neurológicas), sob a coordenação de Doralina Brum, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) da Unesp, reuniu para estudos dedicados mais de 70 pesquisadores de diversas regiões brasileiras, envolvendo cerca de 50 centros de pesquisa.

Daí resultou o artigo “Incidência e evolução clínica da doença coronavírus 2019 em uma coorte de 11.560 pacientes brasileiros com esclerose múltipla”, publicado na Multiple Sclerosis Journal. Aborda o impacto do Covid-19 no espectro das desordens da neuromielite óptica.


O REDONE.br celebrou também parceria com entidades internacionais para o compartilhamento global de dados sobre pacientes com esclerose múltipla e SARS-Cov-2, passando a figurar entre uma dezena de registros europeus e da América Latina.


Essa parceria tem resultado em publicações, tais como o Covid-19 in people with multiple sclerosis: A global data sharing initiative, no Multiple Sclerosis Journal. Outros artigos já estão submetidos, em revisão no momento.


“Em um curto intervalo, diagnosticamos que os pacientes com esclerose múltipla evoluíam de maneira similar ao restante da população brasileira, mesmo em uso de medicação durante a pandemia. Na primeira análise, a amostra foi pequena e, agora precisamos avançar para confirmar o resultado em amostra de pacientes com EM e COVID-19.”, pontua a dra. Doralina.


Vale frisar que todos os resultados já foram inseridos em um mapa interativo e sincronizado, disponível aos colaboradores, possibilitando a compreensão ampla do avanço da doença no cenário nacional.


“Precisávamos dessas informações. Elas não existiam, ao menos não organizadas. O REDONE.br foi a ferramenta-chave para responder às perguntas da sociedade brasileira, recorrendo a meios para além dos estudos internacionais que não refletem a realidade da nossa população.”, ressalta Felipe von Glehn, coordenador do Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).


Ciência


A plataforma é alimentada constantemente com dados epidemiológicos, clínicos, presenças de surtos e gravidade da doença. Ainda segundo Felipe von Glehn, foi um ano de conquistas em termos de captação de dados e modernização da ferramenta digital. Enfim, possibilitou uma interface mais intuitiva e fácil de navegar em diferentes sistemas operacionais.


Doralina assevera que a vocação do REDONE.br é atuar em âmbito nacional, com amostra representativa da população e respondendo a questões simples e objetivas para as quais há uma lacuna de conhecimento.


“Esses elementos são fórmula bem-vinda à comunidade científica e à literatura atual, pois atravessamos a era da compreensão das doenças a partir do big data. O assunto pode ter sido bem estudado em outras populações, caucasianas, africanas ou asiáticas, mas não bem esclarecido em populações miscigenadas, como a brasileira. Uma plataforma online, 24/7, à disposição dos neurologistas em âmbito nacional é modernizar a abordagem à ciência no Brasil.”


Para Maria Fernanda Mendes, coordenadora do Ambulatório de Doenças Desmielinizantes da Santa Casa de São Paulo e pesquisadora do projeto, a publicação dos dois estudos em revistas científicas de referência é vitória para o grupo e, principalmente, para a Academia Brasileira de Neurologia.


“Fomos elevados como entidade de representatividade qualificada nas publicações internacionais.”, destaca. “O REDONE.br significa um olhar voltado para a condição de saúde no Brasil, fazendo indagações aos nossos pacientes que não ocorrem em outras partes do mundo.".


A professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do programa, Lis Campos, comenta que o projeto mostra que, mesmo em um país tão grande e distinto, é possível organizar trabalho conjunto rico e promover produção científica de relevância.

Caminhos


Agora, com a vacinação, a ideia é investir em estudos que tragam respostas sobre o desenvolvimento da infecção nos pacientes que tiveram confirmação do diagnóstico, além de analisar a resposta às vacinas.


Nise Alessandra Souza, vice-coordenadora do DC de Neuroimunologia e integrante do projeto, acentua que a confiabilidade e a facilidade da plataforma do REDONE.br foram essenciais para os primeiros estudos: “Queremos avançar mais.”.


Para Doralina, o foco principal do registro é dialogar com o Ministério da Saúde em prol da boa prestação de assistência. “Temos uma plataforma robusta, acessível e compartilhada a todos os neurologistas, colaboradores e pesquisadores. Almejamos contribuir à formação de políticas públicas com informações representativas sobre nossa população.”.


O presidente da ABN, Carlos Rieder, aponta usualmente o valor dessas ações e a relevância de se fortalecer permanentemente o REDONE.br:


“O DC de Neuroimunologia está colhendo os primeiros frutos, o que é um incentivo. Temos investido para que, cada vez mais, outros grupos de trabalho em diferentes áreas tenham condições necessárias para desenvolver projetos de relevância ao bem-estar e à qualidade de vida da sociedade brasileira.”


Passos Futuros


O projeto COVID-19 manterá a atualização de dados em períodos determinados, de modo a gerar novos resultados sobre os desfechos da doença na EM e na NMO. Também mirará outros aspectos relevantes relacionados, como as vacinas e possíveis eventos adversos neurológicos.


Para alcançar esse objetivo, o REDONE.br já convida os membros interessados a fazer parte do grupo de trabalho de Covid-19 e Vacinas. Além das doenças desmielinizantes, está trabalhando, em conjunto com diferentes grupos de pesquisa, para a implementação das abordagens de outras doenças pela plataforma, como esclerose lateral amiotrófica e doenças raras.

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