SBH denuncia falta de medicamentos para o tratamento da hanseníase

A denúncia desperta para críticas já realizadas ao texto final do ESCOPO do Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para diagnóstico e tratamento da doença



Em julho, a Sociedade Brasileira de Hanseníase (SBH), com apoio de outras entidades de especialidades médicas, incluindo a Academia Brasileira de Neurologia (ABN), fez uma crítica ao texto final do ESCOPO do Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para diagnóstico e tratamento da hanseníase.


O PCDT teria o objetivo de auxiliar profissionais e gestores de saúde na tomada de decisões referentes às questões que apresentam variabilidade na prática clínica ou nas incertezas científicas quanto à eficácia, segurança, custo-efetividade e aplicabilidade do tratamento da doença no Brasil.


A hanseníase é uma doença infecciosa neuro-dermatológica de evolução crônica e altamente incapacitante se não tratada de forma adequada. “Infelizmente, o nosso país ainda ocupa uma posição de destaque em relação ao número de novos casos por ano. Isso não só nos preocupa, como também exige um posicionamento firme das especialidades médicas diretamente envolvidas”, comenta Raquel Campos Pereira, neurologista, neurofisiologista clínica e atual secretária do Departamento Científico (DC) de Neuropatias Periféricas da ABN.


A carta de crítica ao ESCOPO do PCDT aborda inúmeros pontos que não foram mencionados no protocolo, como a grande importância da implantação da sorologia anti-PGL-I, a resistência medicamentosa as poucas drogas disponibilizadas, utilização de técnicas diagnósticas por biologia molecular e sugestão da criação de unidades de Serviços de Atenção Integral em Hanseníase em municípios hiperendêmicos ou em macrorregiões de saúde.


A eletroneuromiografia e o ultrassom de nervos periféricos, considerados exames complementares essenciais para o diagnóstico e seguimento da doença, são outro tema não abordado no texto do protocolo e suscitou descontentamento por parte dos especialistas.


O intuito da SBH e de todas as entidades médicas apoiadoras é chamar a atenção para a necessidade em procurar revisão sobre estratégias de ativa e avaliação de participantes, auxiliando os profissionais de saúde com o PCDT quanto às ações de maior importância no controle da endemia.

Para Francisco Gondim, coordenador do DC de Neuropatias Periféricas e membro do Conselho Fiscal da ABN, a hanseníase é um flagelo que, infelizmente, ainda põe em risco uma quantidade significativa de brasileiros. Nesse contexto, o trabalho em equipe é fundamental.


“A doença, muitas vezes, é de difícil detecção e causa sequelas importantes, mesmo nos dias atuais. Apesar dos tratamentos ainda serem insuficientes em muitos casos, a terapia disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é de baixo custo e deve ser prioridade nas ações públicas e sanitárias de todo o território nacional. Toda a sociedade precisa mobilizar-se em conjunto para que possamos fornecer tratamento sem interrupções e um dia erradicar a doença do Brasil”, pontua.

A PQT, poliquimioterapia

Em agosto, a SBH encaminhou outra carta, porém, dessa vez, o documento abordava uma denúncia relatando a falta de remédios para o tratamento da hanseníase – tanto a poliquimioterapia (PQT) quanto medicações substitutivas.


“Essa carta foi encaminhada ao Ministério de Saúde com o objetivo de solicitar a disponibilização pública do quantitativo de medicamentos programados e entregues aos Estados no ano de 2020, assim como o quantitativo em estoque e de remédios (PQT ou substitutivos) que ainda serão recebidos ou adquiridos pelo Ministério no corrente ano”, explica Raquel.


O tratamento da hanseníase é feito de forma ambulatorial e disponibilizado nas unidades públicas de saúde. A PQT mata o bacilo, evita que a doença continue progredindo e, após o seguimento adequado e monitoração mensal, estes pacientes podem obter á cura. O bacilo morto não causa infecção em outras pessoas e interrompe a cadeia epidemiológica de transmissão da doença.


Portanto, sem o acesso ao medicamento, os pacientes podem sofrer uma piora clínica, acentuação ou instalação de incapacidade física, maior tempo de doença, intensificação do preconceito e estresse psicológico ou, ainda, manter a transmissão por aqueles sem tratamento. Raquel ainda completa: “O desenvolvimento de cepas resistentes já é fato no Brasil e a interrupção do tratamento pode favorecer o surgimento de cepas resistentes aos antibióticos tradicionais”.

O documento denuncia a carência desse medicamento em algumas cidades do estado de Pernambuco, mas há outras localidades que sofrem com a mesma situação. Com esse cenário, a preocupação pela falta da PQT é compartilhada pela SBH, pelo Departamento Científico de Neuropatias Periféricas da ABN e por outras entidades médicas envolvidas com a causa.


“Nós apoiamos a SBH neste momento ímpar. Talvez seja a primeira vez que falte medicação desde a implantação da PQT no Brasil, no início da década de 1980.


Isto é grave, deve ser denunciado e combatido”, alerta Raquel.


A luta contra a doença já obteve conquistas, mas o caminho ainda é longo. A assistência precisa avançar em pontos importantes como o acesso a exames sorológicos, neurofisiológicos, de imagem e de biologia molecular para diagnóstico precoce e segmento longitudinal para um rápido controle da doença.


Segundo Raquel, todos os esforços são válidos para pacientes que sofrem tanto com o preconceito e estigmatização de uma doença secular.


“O trabalho árduo de pesquisadores de várias universidades nacionais, sociedades médicas e centros de referência vislumbra uma chance real de melhorar dados da doença no Brasil. Porém, isto também exige interesse, investimento e logística do Ministério da Saúde e órgãos de gestão estadual e municipal em todos os níveis da saúde pública: primária, secundária e terciária”, pontua.

65 visualizações

Eventos

event-placeholder.png
event-placeholder.png
event-placeholder.png

HOME

INFORMAÇÕES

CONTATO

Rua Vergueiro, 1353, sl. 1404, 14ºandar;
Torre Norte Top Towers Office;
São Paulo/SP - Brasil CEP: 04101-000.

contato@abneuro.org

MÍDIAS SOCIAIS

  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram

Copyright © Academia Brasileira de Neurologia 

Política de privacidade e uso de informações