Uma nova Diretoria toma posse na ABN

Carlos Rieder, presidente eleito, adianta o que esperar da ABN na gestão que agora se inicia



Carlos Roberto de Mello Rieder é professor adjunto de Neurologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e neurologista da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e do Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre (RS). Recentemente, em 28 de agosto, na Assembleia Geral Ordinária que ocorreu durante o evento digital ABN LAB Especial, foi eleito presidente da Diretoria 2020-2024 da ABN.


Em entrevista ao ABNews, ele conta quais são os planos dos recém-empossados para áreas como Educação Médica e Defesa Profissional, atuações em sociedades regionais e internacionalização da Neurologia do País.


Qual sua análise da ABN que recebe e como almeja entregá-la a seu sucessor?


As diretorias recentes fizeram um trabalho importante nas várias áreas de atuação da ABN. A Academia cresceu e se fortaleceu muito na última década. Daremos continuidade ao que vem sendo realizado com sucesso e abriremos novas frentes, tendo em vista frutos desde agora e para o futuro. No campo da educação médica, a ABN não substituirá o modelo presencial pelo virtual, mas investiremos ainda mais nas possibilidades digitais. Nestes tempos de COVID-19, ganhamos em convicção de que muitos conteúdos e debates podem ser produzidos on-line, como interações dos Departamentos Científicos e dos associados de todos os cantos do País. Encontros de conteúdo prático, tais como com discussões de casos clínicos, são caminhos que pensamos adotar com maior frequência.


Que tipos de benefício imagina com mais um formato de educação médica?


Todos os investimentos nessa área são complementares. A meta é disseminar o conhecimento, focando em especial as regiões mais distantes e de difícil acesso. Com a possibilidade de educação a distância, poderemos aumentar a frequência de eventos e ainda com custo menor. O neurologista, esteja onde estiver, deve ter acesso às novidades da especialidade em diagnóstico, tratamento, e novas terapias. Contaremos, nessa área, com as valiosas contribuições de Ricardo Nitrini, que continuará sendo nosso diretor científico. Agora, na pandemia, nos reinventamos, por força das circunstâncias. Não foi possível realizar nosso tradicional Congresso presencial, que, neste ano, seria na cidade de Gramado (RS). Esta dificuldade trouxe um desafio, que foi a realização de um grande evento em plataformas digitais. Surgiu assim o ABN LAB Especial, com conteúdo de altíssimo nível, além de gabaritados professores nacionais e internacionais.

O ABN LAB substituiu o Congresso de Gramado?


Não, de forma alguma. Teremos o Congresso Brasileiro em Gramado, em 2021. O ABN LAB nasceu da busca de alternativas para um momento incomum. Fernando Kowacs, Francisco Rotta e eu tivemos a honra de organizar e de aprender com o processo. Agora, já imaginamos o Congresso, em sua próxima edição, utilizando algumas atividades em formato híbrido, com atividades presenciais e convidados internacionais on-line. Além da redução de custos, permitirá uma participação ainda maior de importantes neurologistas e pesquisadores internacionais. Estamos trabalhando com a Comissão Assessora de Congressos, recém-constituída, para criar um modelo ABN para esses grandes encontros. Pretendemos que as sucessivas edições do Congresso Brasileiro de Neurologia tenham programação contínua e interligada, mantendo pontos de sucesso e aperfeiçoando o que for possível.


Quanto à Defesa Profissional, o que a Diretoria da ABN planeja para enfrentar a crise?


A Comissão de Exercício Profissional tem o colega Sandro Matas como coordenador. A ABN é bastante atuante nos órgãos governamentais e na Associação Médica Brasileira (AMB). Recentemente, ganhamos reforço de uma agência para planejamento e marketing, que, aliás, fez uma pesquisa com 600 colegas sobre suas principais demandas. Essa amostragem contou com 77% de neurologistas (dos quais 60% com título e 40% não), além de residentes, estudantes e profissionais de outras especialidades. A maior parte (70%) é de aplicação clínica, embora algo em torno de 40% tenha algum vínculo com hospitais e centros universitários.


E os resultados?


Temos muitos desafios para a Defesa Profissional: 62% denunciam a baixa remuneração dos planos de saúde e/ou pelas horas de trabalho do serviço público. Um grupo de 40% aponta horas excessivas de trabalho e 20% querem mais educação continuada. Quanto aos aspectos positivos, o Congresso Brasileiro de Neurologia merece 75% de citações e a publicação Arquivos de Neuropsiquiatria também tem resposta positiva, assim como os programas de atualização médica.


Já há um planejamento de como será a atuação da Defesa Profissional?


A busca será por melhor remuneração, normatização adequada, fim das pressões e glosas unilaterais. Enfim, atuaremos para ampliar o papel do neurologista e defender os interesses da especialidade. A Comissão também estará vigilante a eventuais tentativas de atuação por pessoas não habilitadas nas áreas da Neurologia. Simultaneamente, buscaremos aproximar da ABN diferentes profissionais com interface no tratamento de doenças neurológicas. Precisamos construir protocolos comuns, atuar de forma transdisciplinar. Cada um em seu campo, evoluindo juntos com a mesma linguagem e os mesmos fluxos. No fim das contas, o paciente é um só e tem de ser sempre nossa prioridade.


Para a formação, quais são as ideias?


Importante que a ABN apoie e promova a extensão da residência médica em Neurologia para quatro anos. A Academia poderá auxiliar os programas de residência médica nesse processo de transição. Quanto a esse tópico, cabe salientar a importância da Comissão de Educação Médica, que, além de responsável pela realização da prova para título de especialista em Neurologia, desempenha papel essencial na avaliação dos programas de residência médica.


Como vê a articulação da ABN com as demais entidades e a sociedade civil?


Temos passos importantes a cumprir. O primeiro é entre as próprias instituições médicas. Na Neurologia do Brasil, há diversas sociedades e devemos estar coesos. União é a base para conquistas profissionais e educacionais. Há ainda as associações de pacientes, como as sociedades brasileiras de pacientes com doença de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica (ELA), Alzheimer e por aí segue. Muitas vezes, essas associações enfrentam dificuldade de acesso à informação fidedigna. Então, vamos aproximá-las e apoiá-las porque o objetivo final é o paciente. Não podemos nos distanciar da comunidade, dos pacientes, dos familiares, dos cuidadores. A missão social da ABN deve ser exercida plenamente.


A ABN tem participado bastante da Frente Parlamentar e do Instituto Brasil de Medicina, o IBDM. Como se dará a continuidade do trabalho no parlamento?


Nosso ex-presidente, Gilmar Fernandes do Prado, atua fortemente nesse campo e prosseguirá nos representando. Uma vantagem da Academia é que na transição das gestões existe coerência e continuidade. Essa questão do IBDM exige conhecimento, é um fluxo contínuo. A expertise de Prado será de extremo valor.


E a relação com as representações estaduais da ABN?


Os coordenadores regionais e os representantes estaduais terão papel fundamental. Investiremos na aproximação dos capítulos estaduais para fortalecê-los, auxiliando-os no que for possível. Está previsto suporte financeiro que garanta sustentabilidade para os capítulos que necessitarem. A meta é construir um pacto federativo, com diretrizes e reciprocidades. Temos de alicerçar um sistema no qual cada estado trabalhe em parceria com seus coordenadores regionais e a ABN, respeitando especificidades das regiões e mirando a unificação da Neurologia como um todo. Trata-se de um grande desafio. Uma ABN nacionalmente fortalecida facilitará o processo de firmar o País como referência na América Latina, e, assim, contribuiremos fortemente para a internacionalização da Neurologia brasileira.


Outros planos? Médicos jovens, por exemplo?


Várias são nossas expectativas. O corpo discente de membros na ABN cresceu bastante nos últimos anos. Muitos serão os neurologistas do futuro. Devemos estimular esses jovens e contribuir para sua formação. É imperioso para o contínuo crescimento da Neurologia brasileira que consigamos contribuir para a formação de futuras lideranças na área. Já apoiamos as Ligas de Neurologia, os estudantes interessados na carreira na especialidade. Estamos criando uma comissão que irá coordenar essa questão.


Em relação aos Departamentos Científicos, quais os planos?


Os Departamentos Científicos são os pilares da ciência dentro da ABN. São também a engrenagem para o desenvolvimento dos programas de educação médica continuada. Teremos algo especial para eles, em breve. Trabalhamos na criação de novidades para estimulá-los ainda mais em ações relacionadas à informação para a comunidade, por meio do ABNews, das mídias sociais e de outras formas de informação para a sociedade. Terão um tratamento à altura da enorme relevância científica e social que possuem.


A ABN terá novidades sobre doenças raras?


Sim. Inclusive já estamos desenvolvendo uma comissão específica para as doenças raras. A maioria dessas condições apresenta manifestações neurológicas e, portanto, a participação do neurologista é fundamental na condução dos casos. Além disso, se considerarmos o conjunto dessas doenças, elas deixam de ser raras e se tornam mais comuns na população. Sendo assim, sentimos que é nossa obrigação planejar e instituir programas educativos abordando essas condições.


Algum comentário adicional?


A missão de estar na Diretoria da ABN é complexa e desafiadora. São várias as ações que necessitam ser planejadas e executadas. Fico feliz e honrado em poder contribuir ao lado de pessoas tão dedicadas e competentes. A Diretoria Executiva, o Conselho Deliberativo e demais dirigentes vêm realizando incansável trabalho em prol da ABN. Sabemos que podemos contar com o apoio e a participação de todos. Uma ABN forte e organizada contribuirá para melhores condições do exercício da Neurologia brasileira e, consequentemente, para melhorar a saúde e o bem-estar da população. Afinal, como dizia o médico patologista Rudolf Virchow: “A educação médica não existe para proporcionar aos alunos uma maneira de ganhar a vida, mas para garantir a saúde da comunidade”.



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